Carla Couto, dá-me um autógrafo!

Dela, Carla Couto, já toda a gente minimamente ligada ao futebol feminino, e não só, ouviu falar.

O seu talento acima da média fê-la projectar-se ao nível do Olimpo português: a mais internacional, numa altura em que os jogos de selecções não eram tão frequentes, marcadora de golos acima da média, aliados a uma grande elegância dentro de campo.

Partilhámos o balneário, em 1992/93, no Sporting Clube de Portugal. Ela uma jovem cheia de irreverência, alguma indisciplina que não ofensiva, de sorriso no rosto a roçar alguma timidez. A acompanhá-la, indefectivelmente, o pai. O senhor Couto, homem afável e sempre com uma palavra de apoio para todas as jogadoras. (Saudades de pessoas como ele, no futebol).
Aí começava aquela que seria uma carreira brilhante e que todos já conhecem.
O que seria expectável, quando deixasse de jogar e à semelhança de quase todas as ex-jogadoras, é que ela se remeteria a ocupar a sua vida com qualquer outra coisa e, hoje, já só vagamente se falaria dela – apesar do título de jogadora do século.
Mas a Carla, fazendo jus aquela imprevisibilidade que fazia dela uma jogadora muito difícil de travar, surpreendeu-nos a todos. E, à boleia de um Sindicato de Jogadores presidido por alguém que sabe que só com os melhores os frutos aparecem, iniciou um novo percurso no futebol: o de embaixadora do futebol feminino. E quando se ouve a palavra “embaixador/a” fica-se sempre com a sensação de que é um cargo decorativo. Para outros talvez seja, mas não para a Carla. Não para a Carla Couto.
A Carla, aquela que brilhava lá na frente, após o trabalho esforçado de toda a equipa, aquela que durante anos não defendia, desta feita arregaçou as mangas, pegou nas ferramentas que o Sindicato lhe deu e transformou-se no maior veículo vivo de promoção do futebol feminino. Através de visitas às equipas, falando com as jogadoras, apelando ao seu sentido associativo, alertando para os perigos do deslumbramento, mas defendendo as suas condições com veemência junto do próprio Sindicato, percorrendo o país sempre solícita a quem por ela chama, a sua dedicação à modalidade é a todos os níveis ímpar e inatacável.

No passado dia 1 de maio, em Penacova, foi-lhe feita uma homenagem. Daquelas que perduram no tempo. Fizeram um torneio com o seu nome e atribuíram o seu nome a uma academia que pretende dedicar-se ao futebol feminino. Não poderiam escolher melhor figura e o que se deseja é que aquela placa ali se mantenha por muitos e bons anos dando frutos. E quem sabe, dali não saia uma sucessora.

Mas, de todo o evento, aquilo que mais me tocou foi a sessão de autógrafos.
Jovens jogadoras, levadas pelo entusiasmo do que ouviram contar e do que viram, à espera de uma recordação. Mas, e aqui surge o mais importante, esperando pela sua assinatura, pequenos jogadores atentos. E não estavam à espera da assinatura de uma jogadora do seu clube – isso seria demasiado fácil de acontecer.

Não. Estavam ali à espera do autógrafo daquela que eles ouviram falar que tinha sido uma grande jogadora. Sem preconceitos, sem vergonha, assumidamente – realmente, teremos sempre a aprender com as crianças. E este jovens jogadores, serão adolescentes, adultos e pais. E, certamente, olharão para o futebol feminino com respeito, com igualdade.

E esse mérito está, não só por causa do seu talento, mas porque a Carla é uma pessoa cheia de carisma. Simples, com uma alegria infantil, contagiante, que faz eco junto dos mais novos. E eles sentem-se bem recebidos e em pé de igualdade.
E, por tudo isto, pela gratidão que tenho por quem tão bem cuida de um futebol feminino tão caro para mim…
… Carla Couto, dás-me um autógrafo?

 

[créditos fotográficos Sports and Girls]

 [texto de Anabela Mendes, originalmente publicado em Passes em Profundidade]

 

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