Futebol no feminino em Maputo

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Felizarda Lemos não é apenas mãe, esposa e treinadora, mas um exemplo para outras mulheres

Felizarda Lemos é a treinadora da equipa de futebol masculino do Zixaxa, de Maputo. Segundo ela, “para tentar abrir a mente de alguns dirigentes no sentido de valorizarem mais a mulher” e dar o exemplo a outras mulheres.
Para Felizarda Lemos, ser treinadora de futebol de uma equipa masculina é, acima de tudo, um desafio, mas um desafio bom. Ser treinadora de futebol, conta, é ser mãe, ser educadora, ser mestre. A DW África conversou com a treinadora principal do Zixaxa que, depois de ter treinado equipas femininas, tornou-se a primeira moçambicana a dirigir homens nos relvados do país.

DW África: Passou por alguma formação de treinadores?

FL: Sim. Tenho o nível C da CAF [Confederação Africana de Futebol].

DW África: E foi em que ano?

FL: No ano passado. Mas já tinha tirado muitos cursos ao longo da minha carreira como treinadora.

DW África: Treina o Zixaxa desde janeiro até ao momento. Quantos jogos já realizou e quais foram os resultados obtidos?

FL: Fiz quatro jogos de preparação, em que tive três vitórias e uma derrota e agora, no torneio de abertura, fiz quatro jogos e tive duas derrotas e duas vitórias.

DW África: Em poucos momentos da história dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP) encontramos treinadoras de futebol masculino. Como se sente por quebrar esta barreira?

FL: Eu sinto-me uma heroína, porque na verdade é muito difícil ser treinadora de futebol masculino, principalmente em África, onde ainda há um tabu de que a mulher não pode estar no futebol, a dirigir o futebol masculino. Entao, sinto-me uma heroína. Espero que muitas mulheres sigam o exemplo e que consigamos vencer este tabu.

DW África: Sente alguma discriminação no seu dia a dia como treinadora de uma equipa masculina?

FL: Muita discriminação, principlamente por parte dos outros treinadores.

DW África: E como reage?

FL: Naturalmente. [A parte positiva] é que, no final de tudo, eles reconhecem que aqui [não está apenas uma mulher, mas] uma treinadora. É isso que me dá mais força para trabalhar. Eu tenho notado ultimamente que, quando os outros treinadores sabem que vão jogar [contra a minha equipa], trabalham mais, esforçam-se mais, porque nenhum homem quer perder [contra] uma mulher. Então, a minha presença no torneio, no campeonato, acaba sendo boa para os treinadores [para que eles trabalhem] mais, porque muitos deles sentem-se humilhados quando perdem [contra mim] e isso é bom para o desporto.

DW África: E do lado do público sofre discriminação?

FL: Do lado do público e das outras mulheres tenho recebido muito apoio. Mas do lado dos colegas ainda sofro um pouco de discriminação. Mas creio que vai passar.

DW África: mas porque é que ainda existe este tipo de discriminação num país como Moçambique?

FL: Porque nunca aconteceu isso em Moçambique. Pelo que sei, nunca houve uma mulher a treinar homens. Já apareceram algumas mulheres a treinar mulheres, mas a treinar homens é um caso único. Então, acaba sendo normal a reação deles.

DW África: Aliás, o futebol feminino nos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa não é valorizado.

FL: Não é valorizado. E a minha presença como treinadora de uma equipa masculina é para provar também que a mulher pode fazer algo. É mais para tentar abrir um pouco a mente de alguns dirigentes para valorizarem mais a mulher. Porque temos muito talento no futebol feminino, mas não é valorizado.

DW África: Qual foi o seu momento mais feliz enquanto treinadora?

FL: Ainda não tive. Foi um treino, então não o considero [o momento mais feliz]. Foi contra o Desportivo de Maputo e venci, mas não conta muito.

DW África: A relação com os jogadores tem sido boa?

FL: Muito boa, muito positiva. São eles que acabam por me dar muita força.

DW África: Quem é Felizarda Lemos?

FL: Felizarda Lemos é mãe, esposa, mulher.

DW África: E o que é que o seu marido pensa da sua profissão?

FL: (risos) Graças a deus, posso dizer que sou uma felizarda como esposa, porque o meu marido apoia-me em tudo. Posso dizer que sou obra do meu marido. Porque ele sempre me apoiou em tudo o que eu pensei fazer. E continua a apoiar-me. Em nenhum momento me desanimou, pelo contrário: quando eu quis desistir, ele deu-me força para continuar.

DW África: Então não pensa desistir da profissão?

FL: Nunca.

In: www.dw.de

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