Futebol no feminino jogado no Pego por amor à modalidade

Equipa de futebol feminino da Casa do Povo do Pego

Portugal é campeão europeu, dá cartas e marca golos no futebol de 11, mas no feminino está longe dos movimentos da alta-competição. Por cá, a modalidade dá os primeiros passos, sendo que no distrito de Santarém sobram dedos de uma mão na contagem de equipas. Três, incluindo a da Casa do Povo do Pego que disputa o campeonato de Nacional de Promoção. Este é o ano um, 2016 foi o ano zero. As mulheres são diferentes dos homens a jogar à bola? Claramente. Mais lentas talvez, mas mais determinadas e empenhadas. Recusam o rótulo de ‘maria-rapaz’ e tal como as outras espalham perfume fora do campo, discutem moda, calçam saltos altos e falam dos filhos. No relvado transfiguram-se: dizem palavrões, mandam bocas, dão caneladas e empurrões, são quase másculas. O mediotejo.net foi saber como é ser mulher num mundo dominado pelos homens.

Início de uma noite de novembro no campo de jogos do Pego. Atrás das vozes que gritam no relvado vem o bafo aquecido dos corpos em esforço, depressa convertido em vapor devido ao frio que se faz sentir. As luzes da cidade de Abrantes brilham quase ao lado sem ofuscar a força dos holofotes que iluminam o treino da equipa de futebol feminino da Casa do Povo do Pego. Todas as terças e sextas-feiras à noite as mulheres alongam, correm, dão chutos na bola, transpiram, ouvem os conselhos do treinador Marco Cadete e seguem dando velocidade ao jogo. Literalmente por amor à camisola, faça frio ou calor. Jogar à bola é mais que uma prática desportiva, é quase um estado de espírito, uma catarse, um ensaio para a felicidade, indiferente a temperaturas adversas.

Cátia Rodrigues é a capitã da equipa composta por 16 mulheres, com idades entre os 17 e os 34, que ora vestem de azul e amarelo ou, em alternativa, de azul bebé. Uma cor apropriada para algumas atletas que sendo mães abdicam do tempo em família, com os filhos e os maridos, numa tentativa de levar por diante o sonho de jogar à bola.

Aos 33 anos Cátia, trabalha é mãe, mas ainda não esmoreceu a vontade. Iniciou-se aos 12 anos no futsal modalidade que abraçou até há quatro anos quando a oferta deixou de existir na zona de Abrantes e optou pelo futebol, motivada pela paixão desportiva. Conciliar a família, os treinos semanais e os jogos ao fim-de-semana “é complicado”, admite mas “com força de vontade tudo se consegue”.

A maioria dificuldade prende-se com a gestão emocional do tempo que não dá aos filhos. “Passamos todo o domingo fora de casa, é um dia perdido” compensado ainda assim pela satisfação de fazer o que gosta.

Abrantes | Futebol no feminino jogado no Pego por amor à modalidade (C/fotos)
Cátia Rodrigues, a capitã da equipa de futebol feminino da Casa do Povo do Pego

No balneário Cátia é a porta-voz. Tenta transmitir as palavras do treinador e da direção desportiva, faz parte da sua missão. Mas essa nem é a tarefa que mais preocupa a capitã. Manter o “bom ambiente dentro do balneário nem sempre é fácil”, confessa, apesar de no Pego “a malta dá-se toda bem e não há conflitos como já encontrei em outros balneários onde treinei”, recorda. Chega a ser “divertido”, acrescenta. Virtudes da alternância de idades das jogadoras.

E no relvado, a sua feminilidade não oprime o comportamento habitualmente másculo no que toca ao vernáculo. Elas são “piores que os rapazes. Têm o pavio mais curto e perdem as estribeiras mais depressa” conta Cátia. É na contabilidade das agressões e caneladas que a magia faz mais contas de somar do que diminuir. “Dentro de campo esquecesse tudo. Agora dá uma, a outra dá a seguir. Com a emotividade de estar a jogar até nos esquecemos de quem nos deu uma canelada” defende.

Enquanto atleta os anos começam a pesar mas Cátia não quer abandonar o futebol, e mesmo que um dia deixe de integrar o plantel, “o que é natural porque vamos ficando sem as capacidades que a malta mais nova tem” o desejo de permanecer ligada à modalidade é mais forte.

Andreia Martins, de 20 anos, terminou os estudos e pensa lançar-se na aventura de socorrer pessoas no Instituto Nacional de Emergência Médica. Pelo meio, até porque “já lá vão muitos anos”, joga futebol na equipa do Pego. Iniciou-se com 8 anos nos Lagartos de Sardoal, juntando-se aos rapazes sem naturalmente ser um deles. “Não havia equipas de raparigas”, esclarece. Entretanto passou pelo futsal, jogou no UDR (União Desportiva Rossiense) em Rossio ao Sul do Tejo, “a paixão continua a mesma, passem os anos que passarem”.

Na posição de médio, Andreia e é daquelas atletas que aprecia ver um bom jogo de bola, e não apenas estar em campo. “Gosto! Já gostei menos, antigamente era preguiçosa”, solta uma gargalhada. Mas o seu Sporting justifica que também ocupe o lugar de adepta ou de espectadora.

Sente que a dificuldade de se afirmar como futebolista foi-se diluindo no tempo embora nem sempre tenha experimentado esse sentimento. “Quando era a única a jogar no meio dos rapazes levava com muitas bocas vindas da bancada”, parecia-lhe que “as pessoas não queriam aceitar o facto das raparigas também poderem jogar à bola”. Recorda a “discriminação” que sentiu na pele. Andreia não ligava mas os pais “tiveram de ouvir coisas bastante desagradáveis”, confessa.

Os tempos mudaram “principalmente agora que o Sporting e o Braga já jogam no campeonato” e os jogos no feminino “passam na televisão” refere. Dá conta de “imensa gente” a ver o jogo das mulheres do Pego no domingo antes da nossa conversa. Andreia mete fé na esperança do reconhecimento, do “devido valor” às mulheres. “Vêm ver e apoiar. Já gritam e puxam por nós” mas a verdade é que o futebol feminino é uma realidade completamente diferente do futebol masculino. As diferenças começam nos salários (ou na falta deles) e vão até às condições de treino.
Andreia faz as contas: “num jogo do Sporting o estádio está cheio e se for futebol feminino, nem de borla, o estádio fica meio. Não tem nada a ver”, conclui. Sabe que o público não tem a mesma emoção pelas miúdas da bola. O jogo dos rapazes “é mais rápido e emocionante”.

Começa logo pela falta de compensação financeira. Afinal, em Portugal, ninguém paga um bilhete para assistir a um jogo no feminino. Certo é que a nossa visão sobre a importância de uma partida de futebol pode depender do nosso lugar na bancada, de onde a observamos e conseguimos captar a garra dos jogadores em campo. Está tudo sob escrutínio. Mais ainda se a partida for disputada por mulheres.

À saída de um treino ou de um jogo trocam-se os calções pelas saias e as chuteiras pelos saltos altos. “Se formos para uma festa, claro que sim! Não pode ser só espalhar magia no campo”, ri Andreia. Depois é seguir para casa até Montalvo, Mouriscas, Entroncamento, Sardoal ou Abrantes. A residir no Pego contam-se apenas três atletas.

Abrantes | Futebol no feminino jogado no Pego por amor à modalidade (C/fotos)
Vanda Trincheiras em alongamentos no campo de jogos do Pego

Vanda Trincheiras é avançada mas a sua experiência enquanto mulher que joga à bola é recente. Há um ano que faz o caminho de Sardoal até ao Pego. “Desde pequena que gosto” mas a vergonha de competir entre rapazes impedia-a. Agora “é para continuar”, garante.

E o campeonato destas mulheres é o Nacional de Promoção. “Só existem duas divisões: a principal e a promoção” explica o presidente da Casa do Povo do Pego, Carlos Cadete. No distrito de Santarém somente três equipas de futebol feminino: “o Pego, o Ouriense e Almeirim” acrescenta. A equipa do Pego também disputa a Taça de Portugal Allianz.

Pelo Pego “partindo do pressuposto de igualdade de género entendemos que fazia sentido a aposta no feminino”, diz Carlos Cadete. Quando os homens do Pego jogam em casa, as mulheres jogam no campo do Rossio. “Enquanto este campo não tiver luz suficiente terá uma equipa de deslocar-se ao Rossio, mas já estamos a tratar dessa questão” adiantou o presidente, para que uma das equipas possa “jogar à noite”. Nas mulheres, Carlos Cadete vê um maior empenho. “Quando podem vir ao treinos vêm, os seniores é mais ao contrário”, nota.

O sacrifício é confirmado pelo diretor desportivo, João Horta. “Temos atletas que trabalham por turnos, outras estudantes, uma chegou agora no comboio de Lisboa”, portanto “temos algumas limitações naquilo que é o nosso concelho mesmo a nível de formação”, vinca, dando conta que “a captação não é muito fácil”.

Em 2016, ao início da época, a equipa contava com 26 atletas, um projeto que arranca no Pego pela primeira vez. Os jogos decorreram todos no campo do UDR. Isto porque o campeonato Nacional de Promoção não pode ser jogado em campos pelados, só relva natural ou sintética. Este ano é diferente.

Abrantes | Futebol no feminino jogado no Pego por amor à modalidade (C/fotos)
João Horta, diretor desportivo futebol feminino da Casa do Povo do Pego

Quanto a formação “leva algum tempo. É uma espécie de curso intensivo. Grande parte delas não tem formação futebolística ao nível das Escolinhas como acontece com os rapazes que têm formação desde pequeninos até seniores” afirma. O clube do Pego “está aberto a quem quiser experimentar”, até porque ser um bom futebolista a nível técnico “não está nos genes, trabalha-se!” e vocação estas mulheres têm de sobra, independentemente do talento. No concelho de Abrantes “teremos 200 ou 300 meninos em formação de futebol, e meia dúzia de meninas no máximo” embora “no desporto escolar já seja diferente” sublinha.

Somando algumas derrotas neste início de época, a 29 de outubro, segundo João Horta o problema não está na qualidade das jogadoras mas na evolução do treino durante toda a época desportiva. “Esse adquirir de conhecimentos e interação dentro do grupo e metodologia de trabalho é mais complicado para o treinador o número de atletas não ser sempre o desejável em quantidade suficiente para por em prática certos exercícios”.

Quando a direção da Casa do Povo do Pego convidou João Horta para assumir o futebol feminino ficou na expetativa. “É sempre uma incógnita”, mas a integração acabou por ser “fácil”. Nega a incompatibilidade de pensamento entre homens e mulheres mas contraria a visão da capitã. “Enquanto os homens em campo são capazes de dar uns pontapés uns nos outros e cometer faltas, no fim do jogo esmorecesse tudo. Com a mulher já não é bem assim, cumprimentar é mais difícil e o sorriso é diferente”.

Abrantes | Futebol no feminino jogado no Pego por amor à modalidade (C/fotos)
Treinador Marco Cadete da Equipa de futebol feminino da Casa do Povo do Pego

O treinador partilha a mesma opinião. Garante que “é mais fácil treinar homens do que mulheres porque quando se chateiam é a sério”. Chatices à parte Marco Cadete sabe que com mulheres “há rigor”. As jogadoras reparam no trabalho alheio, criticam e chamam a atenção se não for bem feito. Para jogarem futebol “elas privam-se de muitas coisas que os homens não se privavam simplesmente porque é de borla”.

A vida de Marco “foi jogar à bola como jogador profissional” até há seis anos, quando assumiu funções de treinador. Chegou ao futebol feminino do Pego muito por causa da filha Inês que também joga. Fala de “uma experiência diferente” que promove quer o treinador quer as jogadoras uma vez que há menos escalões, menos equipas e mais facilidade de chegar à primeira divisão. O trabalho do treinador centra-se, nesta fase, no “passe e receção” e só depois parte para outros campos.

A época sofre, dia 10 de dezembro, um interregno para voltar aos campos em fevereiro de 2018 com uma eliminatória de Taça Allianz pelo meio. No fim de março termina a época do Nacional de Promoção mas os jogos continuam de outra forma noutro campeonato.

Fotos de Jorge Santiago

In mediotejo.net

AS

Desde sempre que jogo Futebol, mas nunca fui federada. O Portal Futebol Feminino em Portugal entrou na minha vida após uma pesquisa que estava fazer sobre o Futebol Feminino, e então cá estou a colaborar.

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