“As miúdas giras que dão uns toques na bola” – Capazes

As-miúdas-giras-que-dão-uns-toques-na-bola-696x464 Portugal na Holanda

Segui, com bastante entusiasmo, a primeira participação da seleção portuguesa no Campeonato da Europa de Futebol Feminino. Habitualmente não sigo muito de perto o futebol feminino, mas não pude deixar de acompanhar esta histórica classificação para a fase final. E ainda bem que o fiz, porque o desempenho das jogadoras portuguesas só nos pode deixar muito orgulhosos/as.

Menos satisfatória e sem grande motivo de orgulho foi a cobertura jornalística feita da prova. Refiro-me especificamente aos comentários que acompanham a transmissão dos jogos.

Em primeiro lugar, saltaram à vista as constantes comparações com o futebol masculino. Não, não foi essencialmente em questões táticas ou técnicas, mas em trivialidades sem qualquer interesse desportivo. A jogadora escocesa que é parecida com o Roonie; a nossa guarda-redes, Patrícia, que tem em comum não apenas o nome mas um sem fim de características com Rui Patrício; e, claro, Diana, a cópia feminina do Liedson.

No mesmo sentido, (agora rendo-me eu às comparações) confesso que fiquei muito surpreendida pelo facto de o entusiasmo revelado pelos referidos comentadores não se aproximar, nem de longe, nem de perto, do entusiasmo revelado em fases finais de competições masculinas das seleções portuguesas. Aliás, o tom foi sempre claramente desadequado à competição em causa.

A gota de água, leia-se o micro-machismo mais evidente, foi quando se referiram a uma atleta da seleção inglesa como a jogadora “dos bonitos olhos azuis”, o que me parece um exemplo de um fraco serviço público. Em tantos minutos de jogos masculinos, não me lembro de ouvir nenhum/a comentador/a falar dos olhos bonitos do Quaresma, do ar fofinho do Bernardo Silva ou do sorriso do Nani.

Na minha opinião, o caminho pode fazer-se apostando em jornalistas homens e mulheres, matando assim dois coelhos machistas de uma cajadada só: dando oportunidade a uma jornalista de participar nos comentários das transmissões televisivas destas competições e valorizando o aspeto desportivo das mesmas. À chegada ao aeroporto de Lisboa, jogadoras e equipa técnica, afirmaram que podemos, no futuro, ser ainda melhor seleção. A minha esperança é que essa (r)evolução também se vá verificando no jornalismo.

 

Abraço e saudações feministas,

Raquel Sampaio

 

In https://capazes.pt/

About Joana Lima

Desde 2011 comecei a assistir a alguns jogos na TV. Depois da final da Champions, apaixonei-me por este desporto. Não escrevo com o Novo Acordo Ortográfico.

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