Os imensos desafios de Shipanga

Os imensos desafios de Shipanga

© FIFA.com

Em março, a sede da FIFA em Zurique foi tomada pelo futebol feminino. Novos e antigos treinadores e treinadoras de seleções foram até a Suíça a fim de participar do Seminário para Instrutores de Futebol Feminino, no qual 29 instrutoras e três instrutores se encontraram para discutirem a formação de técnicos e instrutores de ambos os sexos.

Entre os presentes, esteve a treinadora da seleção feminina da Namíbia, Jacqueline Shipanga, que foi a Zurique falar dos desafios e das dificuldades existentes no seu país. “Os desafios que enfrentamos lá são muitas vezes tão imensos que chegamos a nos perguntar se alguém se importa com os treinadores e instrutores”, revelou.

“Os seminários para instrutores têm uma grande importância porque neles podemos trabalhar com  pessoas que são um modelo a ser seguido e com gente altamente qualificada em se tratando de futebol feminino”, prosseguiu. “É motivador encontrar treinadoras de altíssimo nível como Tina (Theune) e April (Heinrichs). Elas são humildes a ponto de incentivar e ajudar. É neste momento em que sinto que existe alguém que se importa comigo.”

Do tênis para o futebol
Embora tenha escolhido o futebol, Shipanga se interessava mesmo era pelo tênis. “Nunca sonhei em treinar a seleção da Namíbia”, contou. “O esporte que mais me atraía era, na verdade, o tênis. Os meus ídolos eram Andre Agassi, Monica Seles e Gabriela Sabatini, que eram os atletas que a gente via na TV. Quando eles apareceram para mim, eu decidi que também queria fazer parte do mundo dos esportes, mesmo que não fosse jogando tênis.”

E a escolha acabou sendo o futebol, um esporte que desagradava e envergonhava a família. “Não sei como é no norte, mas, no sul, geralmente quem joga futebol são os desempregados ou então as crianças de rua, ou seja, gente que é vista pelos outros como fracassados”, explicou. “Por isso, precisei ter uma motivação extra e fazer um mestrado para provar que jogadoras de futebol podem ser inteligentes.”

O que também a ajudou foi observar a carreira de outras jogadoras. “Acompanhei a trajetória de Fran (Hilton-Smith) na África do Sul e cheguei à conclusão de não sou uma vergonha, e o que estou fazendo não é errado. Não sou a única. E ela se tornou uma grande inspiração para mim.”

Assim Shipanga seguiu, com perseverança e contra todas as adversidades, pavimentando o seu caminho no futebol feminino da Namíbia. Atuando como zagueira, ela mudou a história da seleção do país, assumiu a braçadeira de capitã e se tornou treinadora não só do selecionado principal, mas também das seleções sub-20 e sub-17 da Namíbia.

Ano passado, durante a Copa do Mundo Feminina da FIFA, Shipanga fez parte do Grupo de Estudos Técnicos da FIFA e analisou as seleções participantes e os treinamentos delas. Com apenas 36 anos, a treinadora é dona de um currículo invejável, tendo formação como treinadora por meio do “Projeto Namíbiado Futebol Alemão” organizado em conjunto pelo Comitê Olímpico Alemão e pela Federação Alemã de Futebol.

Uma por todas e todas por uma
Por outro lado, Shipanga já se deparou com grandes dificuldades, e são as suas companheiras que dão a força de que ela precisa para continuar fiel ao esporte das multidões. A namibiana sabe que não está sozinha, e que até treinadoras de sucesso como Hope Powell e Vera Pauw tiveram de superar muitos obstáculos.

“Todas essas treinadoras e ex-jogadoras de altíssimo nível me falam para continuar a qualquer custo, e que sempre estarão lá quando eu precisar”, revelou. “Isso é incrível. Vou para casa, ligo para a April e pergunto se ela pode ajudar, e sei que ela irá. E isso é o que me faz continuar e não desistir. Enquanto houver mulheres como a Tina, o futebol feminino seguirá crescendo.”

A seleção feminina da Namíbia ainda não conseguiu se classificar para um Mundial ou para uma Copa Africana de Nações, mas, enquanto existirem mulheres que, como Jacqueline Shipanga, têm algo a dizer, o futebol do país estará em um bom caminho. “Quem melhor para desenvolver o esporte que os ex-jogadores, atuais treinadores e instrutores? São eles que trabalham diretamente no campo com as jogadoras e com a comunidade.”

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