Mónica: futebolista e karateca. “Num treino nos EUA, vi helicópteros, polícias e três pessoas malnutridas a fugir. Eram imigrantes ilegais”

Apesar dos seus 24 anos, Mónica Mendes já jogou em seis países e representou 37 vezes as cores nacionais. Filha de karatecas, aprendeu a tocar acordeão e foi jogar e estudar para os EUA, onde viveu um episódio que a marcou. Dona do seu nariz, diz que segue a sua intuição, mais do que o conselho dos outros. Planos para regressar a Portugal, por enquanto, não há

 

JOSÉ CARIA

Pode fazer o retrato da sua família?
Os meus pais são profissionais de karaté, os dois. Dão aulas de karaté de manhã à noite. Tenho uma irmã com 27 anos e um irmão com 11.

Com pais karatecas deve ter começado a praticar karaté antes do futebol…
Bem, na verdade o meu pai é professor de karaté mas também dava aulas de futebol no Colégio de Santa Maria, e também jogou futebol, era guarda redes. Portanto o “bichinho” nasceu ao mesmo tempo. Desde que me lembro, sempre fiz karaté e joguei futebol.

Começou a jogar futebol nesse colégio onde o seu pai dava aulas?
Sim. Comecei a jogar com os rapazes, mais velhos. Eu era mesmo muito pequenina, tinha quatro anos. Estava no infantário nesse colégio. Quando chegava a hora da sesta, assim que as minhas educadoras viravam as costas e eu via o meu pai chegar, fugia para ir ter com ele. Lembro-me perfeitamente que só queria ir para o meio dos rapazes e roubava-lhes a bola com as mãos para conseguir levá-la até à baliza (risos). Depois lá percebi que não é assim que se joga.

Ficou a estudar no colégio?
Sim, até ao 5º ano.

Foi boa aluna?
Sempre fui boa aluna e sempre conciliei o desporto com a vida académica muito bem.

Quando era pequena o que dizia que queria ser quando fosse grande?
Sempre senti que ia fazer algo relacionado com o desporto. Não sei se é por ter nascido num meio familiar ligado ao desporto. Nunca me imaginei a fazer outra coisa que não fosse karaté ou futebol. Com os anos, a vida levou-me a ser profissional de futebol mas neste momento podia ser também karateca de alta competição.

Mónica, à direita, com o pai e um primo, a jogar futebol no jardim em frente a sua casa D.R.

Quando é que vai para o primeiro clube?
Quando eu tinha nove/dez anos essa equipa do meu pai jogava um torneio anual de futsal em que eu participava também. Houve um ano em que adiaram o jogo de sábado para domingo por minha causa. Porque no sábado eu tinha uma aula de música. Quando fomos jogar, chegamos à final, contra uma equipa da Sociedade Recreativa do Bairro da Bela Vista, que era só de rapazes. Perdemos por 10-2 se não estou em erro e eu fui quem marcou os dois golos da minha equipa.

Era a única rapariga da equipa?
Era a única e a jogar com rapazes muito mais velhos do que eu. O treinador da outra equipa na altura gostou muito de mim e no final do jogo veio falar com os meus pais. Aquilo era tudo novo para nós, porque não sabíamos se eu podia jogar com os rapazes ou não oficialmente. Eu fiquei muito contente, os meus pais também, mas não sabiam bem o que dizer. Acabaram por deixar-me ir. Joguei futsal um ano, um ano e meio, com os rapazes, federada. Foi aí que tudo começou.

Nessa altura já jogava na defesa?
Não, na verdade eu detestava jogar na defesa, eu queria era marcar golos. De tal maneira que fui a melhor marcadora da minha equipa no fim da época. Mas o meu treinador, nos jogos mais difíceis acabava sempre por me pôr à defesa. Até que num jogo eu saí mesmo triste porque não queria jogar à defesa, queria marcar golos, e ele disse-me: “Fazemos assim, nos jogos mais dificeis, quando tu marcares dois ou três golos, depois, se eu precisar de ti, meto-te mesmo à defesa”. Ou seja eu tinha de marcar primeiro e depois ia defender.

Nunca se sentiu tentada a não marcar para não ir para a defesa?
(Risos) Por acaso, não, porque eu gostava mesmo de marcar. Para além de jogar nessa equipa federada, sempre que o meu pai ia dar aulas de futebol numa escola da margem sul, eu tentava ir com ele. Eram só rapazes, e eu adorava marcar golos aos rapazes, aquilo dava-me mesmo muito gozo (risos). Ainda hoje dá, só que hoje marco aos homens que é melhor (risos).

Mónica, à esquerda, a representar Portugal em Las Vegas, nos EUA D.R.

Quando é que começa a jogar futebol de 11?
Entretanto, aos 12 anos, já não podia jogar federada com os rapazes. Eu conhecia umas raparigas de uma equipa de futsal que me disseram para ir aos treinos de captação. Fui, só que tive o azar de rasgar o joelho com a rede do pavilhão e então tive que ficar de baixa, uns bons meses, sem poder jogar. Foram 9 cm de rasgão com 4 mm de profundidade. No hospital disseram-me que foi um milagre porque o futebol podia ter terminado ali, ou aliás, nem sequer ter começado. Foi por pouco que não fiz fratura do osso também. Podia ter ficado coxa.

Mas correu tudo bem e vai para o Beira Mar Almada.
No ano seguinte, como ia fazer os 13 anos, já podia jogar federada com mulheres. Na altura só havia a Liga de Mulheres, não havia escalões. Com 13 anos já estava a jogar com senhoras que podiam ser minhas mães. Nessa altura também conheci algumas jogadoras do Beira Mar Almada, que me disseram para ir aos treinos de captação. Primeiro, resisti, por ser futebol de 11, mas acabei por ir e os treinadores ficaram muito contentes comigo. Comecei a jogar assim.

Ficou nessa equipa até quando?
Até aos 15 anos. Duas ou três épocas.

Jogava a ponta de lança ou como defesa?
Ai já era defesa, porque nessa altura o meu treinador assim que me viu nos treinos de captação disse que eu dava uma boa defesa. Salvo erro, era defesa esquerdo na altura. Comecei a jogar no Beira Mar, a ganhar o meu espaço, fui à selecção de Setúbal e comecei a ser vista muitas vezes, até que sou chamada à selecção de sub 19.

Quando é que isso acontece?
A primeira vez tinha acabado de fazer 15 anos, em 2008. Só que na altura eu não podia jogar o primeiro torneio de classificação porque ainda não tinha os 16 anos. Tive que esperar por 2009 para poder oficialmente representar a seleção.

Mónica Mendes no campeonato nacional de cadetes e juniores de Karaté, em 2008 D.R.

Recorda-se do que sentiu quando vestiu pela primeira vez a camisola das quinas?
Claro que sim, nunca se esquece. O mais giro é que foi no aniversário da minha irmã, no dia 7 de abril de 2009. Nuns jogos amigáveis, contra a Bélgica. Foi uma sensação… eu já tinha representado Portugal pelo karaté, mas pelo futebol foi uma coisa diferente. É um sentimento muito gratificante, não sei explicar.

Quem era o selecionador?
Era a professora Mónica Jorge.

Gostou do ambiente da seleção?
Sim, eu já conhecia algumas jogadoras. Nessa altura jogava com algumas delas no Beira Mar ou já tinha estado com elas em estágio, em 2008. Correu tudo bem, tudo tranquilo.

Depois vai para o 1º Dezembro. Como surge o convite?
Na altura começaram a abordar-me porque já estava na selecção de Sub 19, era titular na minha equipa no Beira Mar, era capitã da seleção de Setúbal. Já me estavam a seguir, eu ia fazer os 16 anos, o que significava que oficialmente já podia jogar na Liga dos Campeões, e vieram ter comigo. Acabei por aceitar.

Como é que estavam os estudos nessa altura?
Sempre estudei o suficiente para passar. Na altura treinava futebol e karaté ao mesmo tempo, portanto tentava conciliar as três coisas. Na altura, quando fui para o 1º Dezembro, uma das coisas que tive pensar muito bem foi o facto de ter de ir para o clube de transportes públicos. Foi um processo de crescimento nesse sentido também.

Continuou a praticar karaté?
Sim, continuei com o karaté. Representei Portugal no Campeonato Mundial Associativo e no Europeu de Estilo e também estive nos trabalhos de preparação da seleção só que não cheguei a representar em termos federativos.

Qual é o seu estilo no karaté?
Shotokan.

Num treino da primeira chamada à seleção Sub19 D.R.

No 1º Dezembro é campeã nacional, ganha a Taça e vai à Liga dos Campeões. Como é que foi a experiência na Liga dos Campeões?
Correu muito bem logo no meu primeiro ano, fui titular. Fizemos três jogos. Joguei os 90 minutos em dois deles e era a mais nova. Jogar contra equipas e jogadoras que têm um nível e condições que nós ainda não temos… Lembro-me perfeitamente da emoção que tive e foi algo que me marcou.

Depois vai para os EUA. Porquê?
Nessa altura estava na escola Daniel Sampaio, sempre fui boa aluna e terminei o secundário com boa média para aquilo que eu queria. Entretanto uma pessoa que tinha contactos nas universidades nos EUA e que seguia a seleção de Portugal veio ter comigo através das redes sociais. Conseguiu o meu contacto e perguntou-me se não estava interessada em ir jogar e estudar para os EUA. Claro que não me atirei assim de cabeça. Entrei em contacto com o treinador da universidade, mandei videos e o meu currículo..

Como reagiram os seus pais?
Na altura tive outro convite para jogar em Inglaterra, a tempo inteiro, e tive este que era para estudar e jogar.

Qual era o clube?
Já não me lembro muito bem na verdade, mas era de uma equipa que tinha subido à I divisão. Ainda disse aos meus pais que era isso que queria, jogar a tempo inteiro. Mas os meus pais disseram que não, que eu tinha que terminar os estudos, que os estudos eram muito importantes. Nesse sentido, todas as opções que eu poderia vir a ter que não tivessem escola, os meus pais diziam logo que não. Ficava um bocado chateada, mas compreendia. Entretanto surgiu esta hipótese dos EUA.

E eles deixaram-na ir.
No início eu até estava mais para o não, do que para o sim porque não falava nada de inglês, zero, abaixo de zero até. Na minha média da escola, era a pior disciplina. Detestava. Foi uma ironia do destino ir para os EUA. Ainda insisti com os meus pais, disse-lhes que queria era jogar futebol a tempo inteiro, mas eles não vacilaram.

Foi para os EUA com uma bolsa?
Sim, completa. Só tinha mesmo de jogar e ser boa aluna para manter a bolsa.

Para que zona dos EUA?
Para o sul do Texas, para a zona mais longe possível (risos).

No primeiro jogo que fez pela seleção A, contra o Brasil D.R.

Como é que foi sair de casa dos pais, ir para longe dos irmãos, sozinha?
Fui com uma portuguesa, a Laura. Fomos as duas para a mesma universidade. Mas na viagem, como tive de mudar de avião mais do que uma vez, levava um dicionário de português/inglês da escola na mala (risos). Sempre que precisava de falar no aeroporto, ia procurar as palavras todas, juntava aquilo tudo e fazia uma pergunta (risos). Foi assim a viagem toda até chegar ao Texas.

Foram viver para onde?
Para o campo universitário de Brownsville.

Os primeiros tempos devem ter sido muito difíceis por causa das saudades.
Foram engraçados porque era tudo novo e nós estávamos numa zona que nem é americana, nem é mexicana, é uma mistura dos dois.

A que é que custou mais a adaptar? 
Ao idioma e à cultura. Foi um choque.

Em que sentido, o que é que fez mais confusão?
A comida mais do que tudo. Muito fast food, estávamos sempre a comer pizzas e nas viagens da universidade, íamos sempre ao MacDonalds. Ao pequeno almoço já estavam a comer fritos! Não havia aquela tradição de cozinhar como nós temos em Portugal. Eu estava num sítio onde a cultura era mais latina, nós somos latinos é verdade, mas a maneira de estar é muito diferente da nossa.

Mónica em Washington D.C., num 4th of July D.R.

Estudou o quê na universidade?
No primeiro ano estive a aprender inglês, porque o meu inglês era mesmo muito mau. A universidade tinha um protocolo com um instituto de inglês. Depois, sabia que tinha de tirar o curso em três anos.

Que curso?
Escolhi Health and Human Performance Kinesiology, que em Portugal seria Ciências do Desporto

Ficou nos EUA até quando?
Eu fiquei na universidade até 2015, quando me graduei. Só que nos EUA, a Liga Universitária é diferente da nossa. De agosto a dezembro é a Liga Universitária. De janeiro a maio há uma pausa, é como se fosse uma pré-temporada e depois de maio a agosto há a Liga Semi Profissional dos EUA que é uma prova à parte. Como eu atleta universitária podia jogar no nível semi-profissional, foi o que fiz. Na altura conheci uma pessoa que tinha contactos em diversos sítios dos Estados Unidos e acabei por ir fazer treinos de captação ao Washington DC United e fiquei lá a jogar no verão

Não vinha a Portugal visitar a família?
Só vinha a Portugal quando era convocada à selecção ou nas férias de natal.

Depois de terminar o curso porque não continuou nos EUA?
Estava a precisar um bocado da cultura europeia, porque estar quatro anos longe da nossa cultura, dos 18 aos 21, que é a transição da adolescência para o jovem adulto, há muitas coisas que começam a fazer sentido e outras não tanto. E se calhar estava a precisar de estar mais perto de casa, mais perto da Europa. Por outro lado, em termos de futebol queria estar na Europa.

Mónica em frente à catedral de Milão D.R.

E vai para o Chipre. Porquê o Chipre?
O Chipre foi uma aventura muito interessante porque eu só queria ir para o Chipre para jogar a Liga dos Campeões. Nunca foi minha intenção jogar o campeonato nacional do Chipre. Fui porque a equipa ia jogar a Liga dos Campeões. O meu contrato foi mesmo só para jogar a Liga dos Campeões e depois poderia continuar ou não.

O modelo de contratações do futebol feminino é muito diferente do masculino, podem ser contratadas para competições específicas, não é?
Depende do contrato. Pode ser só de seis meses, pode ser só para a Liga dos Campeões. Mas isso são casos muito específicos, em termos gerais normalmente faz-se por uma época.

Porque é que isso acontece?
São equipas de países onde o futebol não está tão desenvolvido e querem fazer uma grande figura na prova europeia.

Quando sai do 1º Dezembro para os EUA notou grande diferença a nível futebolístico?
Bastante, a parte física então é uma coisa incrível mesmo. Nos EUA treinava-se muito mais e as condições são outras, a mentalidade também, é tudo diferente. No 1º Dezembro, que já era uma equipa de Liga dos Campeões, treinávamos apenas três vezes por semana. Na universidade, nos EUA, era todos os dias da semana, só tínhamos folga depois do dia de jogo e havia dias em que tínhamos treino bidiário. Treinávamos às seis da manhã e às duas da tarde. Para além disso jogávamos duas vezes por semana durante a época.

Qual foi a história mais caricata ou mais insólita que lhe aconteceu nos EUA?
Não é uma coisa muito boa de contar. Foi uma lição de vida. Durante os meus estudos a certa altura, eu era uma das treinadoras de uma equipa de meninas sub-13. Nós estavamos junto à fronteira com o México. Um dia estávamos no treino e de repente começo a ver os helicópteros no ar e a polícia, parecia mesmo um filme. Não percebi bem o que estava a acontecer. À volta do campo de treino era mata e vejo três pessoas a correrem. Vejo os holofotes do helicóptero a apontarem cá para baixo. Era uma família que estava a fazer emigração clandestina, passou a fronteira e que estava a fugir. Via-se que estavam desnutridos, que já estavam em fuga há muitos dias. E eu e as minhas colegas não podíamos ajudar, não podíamos ser cúmplices, ainda para mais sendo eu estrangeira. Nesse momento em que eles estavam a fugir, não consegui ajudar, mas aquilo tocou-me bastante, ainda por cima estando longe da família. A pessoa pensa que são coisas só dos filmes, mas não.

Essa família conseguiu safar-se?
Não, porque um dos pais das atletas pertencia à polícia que está na fronteira e infelizmente ou felizmente, não sei, acabaram por ser indicados.

A jogar no Washington Spirit, nos EUA D.R.

Depois do Chipre vai para a Noruega, como é que isso acontece?
Antes de ir para o Chipre, aqui pela seleção jogámos um jogo na Noruega e na altura eles tinham olheiros e ficaram muito contentes com a minha prestação. No ano em que me licenciei não chegamos a um acordo em que ambas as partes ficassem contentes e então acabei por optar por ir para o Chipre. Mas já havia essa hipotese de ir para a Noruega. Quando saí do Chipre eles voltaram a mostrar interesse e fui para o Valerenga da Noruega. Foram três meses.

Gostou da experiência?
Gostei, mas eu vivia com uma família de acolhimento numa cidade que ficava a uma hora de Oslo. Era muito cansativo, porque quando tinhamos treino bidiário, tinha de sair de casa muito cedo para estar no treino às 10. Mas gostei das pessoas, são muito formadas, muito educadas, muito pela igualdade.

A nível de futebol também há uma grande diferença?
Sim, é muito físico, têm todas um grande porte atlético. Enriqueceu-me como atleta e como pessoa.

Do Valerenga vai diretamente para a Suíça?
A época lá é de fevereiro a novembro, por isso depois vim a casa pelo natal e quando iamos fazer o contrato, houve uma mudança de direção e de treinadores e o que era certo deixou de ser. Ao mesmo tempo nessa altura, através de outra colega minha que tinha agente, falei com essa agente que me levou para a Suíça. Fiquei lá ano e meio, de janeiro de 2016 até este último verão, até junho.

Em que parte da Suiça é que esteve?
Perto da Alemanha, a uma hora de Zurique.

Gostou da experiência no FC Neunkirch?
Em termos de futebol gostei muito mesmo, o nível era melhor. Tínhamos todo o tipo de treinadores, treinávamos muito e muito bem. Na parte pessoal não gostei tanto porque é um povo muito frio. Vivia numa cidade muito pequena, quase uma aldeia, onde as pessoas têm valores muito distintos daquilo a que eu estou habituada. Uma cultura muito fria de afetos, às nove da noite está tudo na cama e não se pode fazer barulho. Muito à base do trabalho, trabalho, trabalho.

Vivia sozinha?
Sim, por opção.

Cozinhava ou comia fora?
Desde que fui para os EUA que me habituei a cozinhar, sempre me desenrasquei. Gosto e prefiro ser eu a cozinhar do que depender de alguém.

Sendo uma cultura tão fria como diz, o que fazia nos tempos livres?
Na verdade, treinávamos muito e não havia assim tanto tempo livre. Mas quando tinhamos tempo livre juntávamo-nos em equipa, porque éramos quase todas estrangeiras. Víamos filmes, conversávamos, nada de mais.

Mónica a tirar o gelo de um campo de treinos na Suíça D.R.

E como é que surgiu o ACF Brescia de Itália, estava farta da Suíça?
Não, terminou a época na Suíça, fomos campeãs e fizemos um brilharete até, e depois por opção, porque senti que já não devia continuar na Suíça, tomei a decisão de não querer continuar. Eu podia até ter mudado de equipa na Suíça mas achei que devia ir para outro sítio. Entretanto, antes de ir para o Euro, um pouco antes de entrar em estágio com a seleção, num dos jogos que fiz na Suíça, num dos meus melhores jogos que fiz lá, havia olheiros e eu nem sequer sabia. Um deles entrou em contacto comigo. Na altura não foi só o Brescia que tinha interesse em mim, mas foi a equipa que escolhi.

Porquê?
Eu queria uma equipa que sonhasse em grande. O Brescia é uma equipa que estava em quatro competições. Agora já não porque perdemos na Liga dos Campeões mas jogamos a Super Copa e chegámos até aos oitavos de final na Liga dos Campeões. Estamos na Taça de Itália também.

Está a gostar de Itália?
Muito, tem sido uma experiência muito boa mesmo.

Do que mais gosta?
Gosto de tudo. Gosto das pessoas, gosto muito da parte profissional, do futebol, da maneira como encaram a cultura futebolística, gosto muito das minhas colegas de balneário, do espírito do balneário, gosto muito da estrutura do Brescia e, à parte disso, gosto muito da cultura italiana, dos italianos, da comida que é fantástica. Na verdade estou lá há quatro meses.

No Lago di Garda, em Itália D.R.

O karaté ficou de parte?
Era impossível conciliar, principalmente em termos de competição, não dá. Deixei de competir quando fui para os EUA. Mas quando venho a Portugal de férias, normalmente dou sempre uma perninha porque gosto muito. O futebol acabou por falar mais alto e foi o que na altura fazia mais sentido.

Disse que estou música. Toca algum instrumento?
Sim, estudei acordeão.

Por opção sua?
Sim. Sempre fui muito mexida, não consigo estar quieta. Os meus pais perceberam que a única forma de eu estar quieta era a ouvir música de acordeão. Não sei como, nem porquê, foi uma coisa muito natural. E comecei a tocar acordeão aos cinco/seis anos. Na altura havia um acordeão pequeno nessa escola de música, mas eu não queria, queria era o grande, que era o clássico. Mas disseram-me que por ter cinco anos era mau para as minhas costas. Então aos seis anos comecei a tocar no clássico, aquilo passava-me a cara, era mais alto do eu, não via nada. Mas toquei e mais tarde fui para o conservatório de música. Acabei por concluir o 5º grau. Depois, também por opção, como não conseguia conciliar desporto e música, optei pelo desporto. Mas tenho o bichinho cá dentro.

Mónica a jogar no Valerenga da Noruega D.R.

O que é que se vê a fazer no futuro, depois de largar o futebol?
Acho que nunca vou largar o futebol (risos). Como jogadora seria irrealista estar a dizer que vou jogar toda a vida a nível profissional. Não dá, infelizmente. Mas vou fazê-lo até me sentir capaz.

Vê-se como treinadora?
Numa fase mais à frente, sim.

Enquanto jogadora, quais são as suas principais ambições?
Ainda há muito para conquistar. Quero chegar o mais alto possível. O que mais gosto de fazer é levar a bandeira portuguesa cada vez mais alto. Estando no estrangeiro é o que eu tento fazer.

Pensa vir jogar para Portugal jogar?
Neste momento não. Mas não sei o que vai acontecer amanhã.

Mónica com o equipamento do ACF Brescia Femminile de Itália D.R.

Tem algum hóbi?
Gosto muito de dançar, muito mesmo.

Costuma ir a discotecas?
Nem pouco mais ou menos, nem tenho vida para isso. E não é esse tipo de música que gosto de dançar. Gosto de música latina. Nas culturas latinas não se dança só quando se sai à noite. As pessoas juntam-se em família ou com amigos, fazem grelhados e coisas assim e há música e dançam. É disto que gosto.

Quando é que ganha o primeiro ordenado?
O primeiro contrato a sério foi na Noruega. Quando estive nos EUA tinha uma bolsa de estudos.

O que ganha hoje no futebol dá para viver confortavelmente?
No futebol feminino há uma grande desigualdade de ordenados, se compararmos com o masculino então, meu Deus! Mas o feminino parece-me que não está no nível que devia estar. Porque por exemplo, com o currículo que eu tenho, se fosse um rapaz, se calhar nunca chegava a receber o que estou a receber, recebia muito mais. Mas, por ser mulher, se calhar no final do mês ainda tenho que contar os tostões para ver se não falta nada. Portanto é uma realidade muito diferente, não tem nada a ver. Agora, se estou contente? Não me posso queixar, faço o que gosto, ganho dinheiro a fazer aquilo que gosto. Se gostava de receber mais? Claro que sim. Acho que qualquer uma de nós, que todos os dias acorda e tem esta vida que nós temos, devia ser recompensada de uma maneira muito melhor do que somos. As mulheres também merecem ser pagas de acordo com o valor e competência delas, não é pelo género.

Mónica em primeiro plano num jogo do ACF Brescia Femminile na Liga dos Campeões D.R.

O futebol feminino é muito diferente do masculino dentro das quatro linhas?
Sim é diferente, os homens são naturalmente muito mais físicos, o futebol deles é sempre muito mais rápido. No feminino é quase impensável haver um passe de 50 ou 60 metros ou estar estar constantemente a fazer sprints de um lado ao outro à velocidade que eles fazem. As mulheres jogam mais à base da tática e da técnica, se bem que os homens também são muito técnicos.

Quem são os seus ídolos dentro e fora do futebol? 
Dentro do futebol, as minhas amigas que tenho feito e com quem tenho aprendido muito. Assim uma jogadora em específico não tenho, nunca tive. Dos homens gosto muito do Cristiano Ronaldo. Não só porque de facto ele é fantástico, mas acima de tudo pela capacidade emocional e física que tem e por ser um trabalhador de exceção, está sempre a dar o máximo e é algo com que eu me identifico bastante.

Pensa casar, ter filhos?
Sim, quero ter filhos e família, sem dúvida. Ainda não aconteceu e pode ser que aconteça enquanto sou jogadora de futebol, nunca se sabe, ninguém pode adivinhar o futuro, mas de facto o ser jogadora de futebol não dá muito espaço para vida pessoal. Estou a trabalhar, isto é o meu trabalho. Ser jogadora de futebol é uma profissão a tempo inteiro e o descanso é tão importante como treinar e às vezes as pessoas dizem: “Ah mas só treinas, só treinas”. Só treino, não. O corpo é a nossa máquina de trabalho. E nós não podemos estar doentes, não podemos ter lesões. Temos de estar sempre ao mais alto nível, temos que nos tratar muito bem, por isso é que não há tempo para noites, não há tempo para vida social, não há tempo para nada disso. Para um profissional, tem que estar tudo sempre muito bem.

Mónica Mendes com os pais e irmãos, quando conquistou a Taça da Suíça D.R.

Tem mais alguma história engraçada do futebol que possa partilhar?
Quando nos qualificamos para o Europeu em 2012, em sub 19, perdemos o primeiro jogo e o segundo era contra a Noruega. Tinhamos mesmo de ganhar se não estávamos fora. Nessa noite lembro-me de ter um sonho e quando cheguei ao pequeno almoço, contei às minhas colegas. Fartaram-se de rir, aquilo não fazia sentido nenhum. Entretanto, nesse dia ganhámos 3-1 à Noruega. Nunca uma equipa se tinha classificado portanto o que eu estava a dizer era quase irreal, ainda para mais porque na altura a Noruega era vice campeã da Europa de sub 19. O sonho ficou-me na cabeça, eu tenho a mania de ir ao Google ver o que é que significa determinados sonhos e fui ver.

E?
Dizia que íamos ter sucesso em todas as provas onde estivessemos inseridas. Disse às minhas colegas e elas, “Lá estás tu, não acredito em nada disso, são coisas do Google”. E eu, “A sério, eu sinto mesmo, nós vamos conseguir”. E, na noite antes do jogo com a Bélgica, que foi o nosso último jogo de grupo, as capitãs foram aos quartos, como é normal, como faziam sempre e vieram ao meu quarto e eu disse: “Tenho a certeza de que vamos ganhar amanhã. Vamos passar”. Mais uma vez achavam que eu estava a brincar, aquilo não lhes fazia sentido. E pronto acabamos mesmo por ganhar e por ir ao Europeu.

Pode contar qual era o sonho?
Posso (risos). É muito estranho e não faz sentido nenhum. Estava na garagem, em minha casa, e havia montes de ratos e eu andava atrás deles a tentar matá-los (risos).

É intuitiva?
Sim, muito. Acredito muito nos meus feelings. Se sinto de uma maneira é assim que faço. Mesmo os clubes, vou para aquele que eu sinto que devo ir, não para o que as pessoas me dizem.

 

In http://tribunaexpresso.pt

Joana Lima

Desde 2011 comecei a assistir a alguns jogos na TV. Depois da final da Champions, apaixonei-me por este desporto. Não escrevo com o Novo Acordo Ortográfico.

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