O (E)feito de Francisca

Francisca é um dos nomes mais falados nos últimos dias pela legião bracarense. A Gverreira do Minho foi a heroína da Supertaça de Futebol Feminino Allianz ao apontar o golo do empate e ao ter convertido a última grande penalidade que deu o primeiro título da época ao SC Braga.

Numa entrevista emotiva à scbraga.pt, Francisca disse que está a viver o melhor momento da sua carreira e sublinhou que este título será o primeiro de muitos que o futebol feminino do SC Braga irá conquistar.

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– Dois dias após a conquista da Supertaça… Qual é o teu sentimento neste momento?

É incrível, sinceramente ainda não acredito que ganhamos a Supertaça, foi algo histórico para o nosso clube. Depois de tanto tempo a tentarmos conquistar um título, este momento é uma sensação maravilhosa.

– Foram dois dias a falar da Francisca que decidiu na Supertaça. Podemos dizer que este é o momento mais especial da tua carreira?

Foi o título mais saboroso para mim. Foi muito bom entregá-lo aos adeptos e ao presidente e, acima de tudo, foi maravilhoso conquistar este título após todo o nosso esforço.

– Conquistar um título neste clube é mais especial?

Neste caso foi diferente porque eu ganhei este título a jogar. Foi especial para mim porque consegui ajudar a equipa dentro de campo.

– O pensaste naquela caminhada até ao momento de bateres aquele penálti?

Eu estava muito concentrada. Desde o primeiro penálti que batemos senti a equipa muito unida. Todos os nossos adeptos estavam na bancada connosco e estávamos confiantes que íamos ganhar o título. Nós batemos os penáltis todos intercalados e supostamente o último penálti era para a esquerda, eu já tinha pensado que ia bater para ali e não mudei. Então pensei, foca-te, parte para a bola porque este é o penálti mais importante da tua carreira.

– Foi também um grito de revolta após aquele golo anulado por centímetros na final da Taça de Portugal?

Eu tento não pensar assim. A derrota na Taça de Portugal custou-nos muito. Acho que aquele golo anulado é muito duvidoso. A Taça de Portugal ficou entregue e este ano começou tudo do zero. Temos uma equipa nova, mas trabalhamos muito bem e conseguimos trazer este título para o Braga.

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– A concorrência na tua posição é altíssima, quando o treinador Miguel Santos disse no hotel o teu nome como é que foi a tua reação?

É uma posição muito competitiva, sabíamos que a Laura voltou lesionada da Seleção e tínhamos de estar preparadas. Estava preparada para tudo, para jogar de início, entrar a meio do jogo ou nem entrar. Na palestra quando o mister disse que ia ser titular senti um alívio e um nervosinho ao mesmo tempo porque é uma responsabilidade acrescida começar no 11 titular e representar este clube.

– Houve alguma conversa durante o estágio que te tenha marcado?

Falei com a Vanessa no quarto a falar do que pensávamos que era o jogo. Nós realmente falamos que não sabíamos o que havíamos de esperar sobre este jogo. Acho que nos tranquilizamos uma à outra e falamos sobre o jogo, trocamos ideias, e marcou-me muito.

– Como é que foi a reação dos teus pais a esta conquista?

Mal tive a oportunidade depois do jogo fui cumprimentar os meus pais. A minha mãe só se ria e o meu pai que não é muito de mostrar emoções estava muito feliz. Senti que eles ficaram orgulhosos. Foi muito especial para mim. Eles não podem ir ver os jogos todos. A minha mãe acompanha todos os jogos pelo computador. Nestes jogos grandes eles fazem questão de estarem presentes. O apoio deles é fundamental para mim.

– Tens saudades de casa?

Foi um bocadinho difícil, sair de casa ter as coisas prontas, ter o apoio e o carinho deles a qualquer momento claro que é mais fácil. Por outro lado, fez-me crescer e temos de assumir mais responsabilidades. Acho que foi um passo importante na minha vida. Agora dou mais valor a estar em casa e a aproveitar todos os momentos com os meus pais.

– Já consegues sentir agora que o golo que marcaste e o penálti que converteste vão ficar na história do clube para sempre?

Acho que ainda não assimilei muito isso. Isto ainda não me saiu da cabeça. Não quero focar este momento como sendo meu, mas como de toda a equipa. Fizemos um jogo fantástico e mostramos ter um grupo maravilhoso.

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– Sentes que os adeptos foram essenciais na conquista da Supertaça?

Sou sincera, depois de tudo o que já se passou nos últimos dois anos poder entrar em campo e ver que tínhamos uma bancada completamente cheia com os nossos adeptos foi espetacular. Foi sentir que eles ainda acreditavam em nós. O treinador disse na palestra antes do jogo que nós tínhamos de dar este título aos adeptos.

– Alguém te disse algo especial durante o jogo?

Houve uma coisa que me marcou durante o jogo. Ao intervalo o treinador disse que nós tínhamos de mostrar o nosso valor dentro de campo, mas o tempo passava e nós não marcávamos. A Regina numa paragem chamou-me e disse-me “Chica por favor dá-me este título”. Depois quando marquei a Regina saltou e foi a correr para dentro de campo. Foi um momento fantástico.

– Qual é que foi o momento mais difícil da tua carreira?

O momento mais difícil foi perder a Taça de Portugal este ano. Da maneira que foi, foi muito doloroso. Não só para mim, mas para toda a gente. Para além de nunca termos conquistado um título, depois de termos marcado um golo, ver-nos um golo anulado quase no fim do jogo foi um soco no estômago. Depois, quando o Sporting CP marcou no prolongamento, vermos que não íamos conseguir dar a volta ao resultado e o apito final soou desatei a chorar, não há maneira de descrever esse momento. Porque sinto que a equipa deu tudo nessa final, eu bloqueei todas as emoções, quase nem reagi ao golo anulado, mas no apito final não consegui conter-me”.

– E o momento mais engraçado?

Uma das coisas mais engraçadas que fizemos foi nos festejos do ano passado. Marcámos um golo e a Jana fingiu que nos ia dar um tiro, caímos todas para o lado mas a Regina decidiu ficar de pé, decidiu ir contra a maré (risos). Mas sim, temos muitos festejos, conversas e gritos que damos dentro de campo. Despois desta conquista da Supertaça chegamos a Braga e juntámo-nos para falar dos momentos do jogo, e é realmente muito engraçado perceber que as coisas que acontecem dentro de campo, naquele momento em estamos tao ansiosas e onde andámos aos gritos umas com as outras, mudam quando chegámos ao final do jogo. Conversámos umas com as outras e só nos rimos a pensar nos disparates que dizemos dentro de campo, é uma coisa incrível.

 – A 8 de janeiro deste ano tiveste a tua primeira chamada à Seleção Nacional A. Na última convocatória não tiveste presente… Sentes que será uma questão de tempo a tua próxima chamada?

Não penso muito nisso, penso sim no trabalho que faço no clube e sei que um dia esse trabalho vai ser recompensado. Acho que todas as atletas que são chamadas à seleção são recompensadas por isso mesmo. A posição de avançada é uma posição muito competitiva, hoje somos chamadas à seleção, amanhã podemos não o ser. Ninguém tem lugar garantido. Temos de trabalhar todos os dias para o conseguir alcançar e para conseguir mantê-lo. Um dos meus últimos treinadores na seleção, o professor José Paisana, sempre disse isso mesmo: que o difícil não é conseguir ir à seleção, o difícil é manter um lugar na seleção.

 

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– Muitos adeptos dizem que és uma verdadeira Gverreira do Minho. O que é que para ti significa ser uma Gverreira do Minho dentro de campo?

Para mim é entrar dentro de campo sempre com respeito ao símbolo, sempre concentradas, porque todos os jogos são importantes. Lutar por cada momento do jogo, por cada lance, com a nossa força e agressividade total, e nunca desistindo, tal como nós demonstrámos nesta Supertaça, onde começamos logo a perder aos 6 minutos mas mostramos realmente que somos Gverreiras do Minho. Não desistimos e fomos até quase aos últimos minutos do tempo regulamentar à procura do empate para forçar o prolongamento, no mínimo, mas na verdade queríamos ganhar o jogo nos 90 minutos, como é óbvio, mas fomos até ao fim e conseguimos trazê-la”.

– A Francisca será conhecida como a mulher golo do SC Braga esta época?

“Espero que sim, já no ano passado tentava sempre ajudar a minha equipa com golos e assistências. Sempre fui mais ponta de lança, mais número 9 do que extrema, mas estou disponível para ajudar a minha equipa em qualquer posição. Mas espero que sim, este ano tenho trabalhado para isso, tenho-me sentido confiante e espero ainda dar muitas alegrias aos nossos adeptos, ajudando com golos e assistências”.

– Estabeleceste algum objetivo individual para esta temporada?

O meu objetivo é sempre fazer mais e melhor do que no ano anterior. Quero marcar mais golos do que na época passada, tentar jogar mais tempo, fazer tudo o que for possível para ajudar este clube.

– Como é que vês o futuro do SC Braga no Futebol Feminino?

Acho que este título nos vai dar a confiança que estávamos a precisar esta temporada. Agora sim, sentimos que realmente podemos alcançar qualquer objetivo que esteja delineado para nós, seja a Taça de Portugal, seja o campeonato, tudo é possível.

Sandra Costa

O futebol faz parte da minha vida. Desde cedo que jogo futebol e decidi criar o Portal Futebol Feminino em Portugal porque senti que ninguém conhecia, sabia ou falava de futebol feminino.

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