“O lugar da mulher é na cozinha, não é no futebol”, Expresso – A Vida de Saltos Altos

D.R.

“As mulheres não entendem de futebol”. “Na minha cidade o futebol é só para machos”. “Futebol feminino só vai ser bom quando acabar”. “O lugar da mulher é na cozinha não é no campo de futebol”. Todas estas frases foram retiradas de comentários deixados a jogadoras do Corinthians. Para chamar à atenção para o sexismo histórico que continua a prejudicar as mulheres também no mundo do desporto, estes comentários machistas estão agora a ser usados nos equipamentos das jogadoras.

Já em março, aquando do Dia Internacional da Mulher, o Corinthians tinha lançado a campanha #NãoÉNão!, que juntava as suas equipas masculinas e femininas de futebol numa ação de consciencialização para o flagelo da violência sobre as mulheres. Dois meses depois, é a vez da campanha #CaleOPreconceito, que volta a pôr as atletas do clube a falar sobre machismo. A ideia é simples: no lugar onde podiam estar logótipos de patrocinadores, os seus equipamentos mostram frases preconceituosas das quais as jogadoras são continuamente alvo. O desafio é conseguir que marcas marquem a sua posição contra a ideia estereotipada de que o futebol não é coisa para mulheres, e que apoiem a equipa feminina. Quando o fizerem, os seus logótipos substituirão estas frases, em jeito de exemplo a seguir.

Historicamente, o incentivo ao desporto feminino veio muito tarde, ao contrário do que aconteceu com o masculino. Claro que isto nos trás a uma realidade de desequilíbrio na visibilidade entre equipas masculinas e femininas, embora ambas já consigam ter desempenhos profissionais de alto nível. A isto junta-se, parece-me óbvio, a construção social de décadas (para não dizer séculos) que remete a figura feminina para a fragilidade e pouca apetência para atividades física (os universos da ginástica e da dança serão provavelmente as maiores exceções). E essa construção está totalmente enraizada na visão machista do desporto que ainda temos hoje em dia, por mais bons exemplos de desportistas do sexo feminino que vão surgindo mundo fora. Sem surpresas, continuamos a levar amiúde com a frase “o lugar da mulher é na cozinha”, que não é apenas uma forma de descrédito, mas de profundo desrespeito.

Voltando à campanha #CaleOPreconceito: escusado será dizer que, em pleno 2018, o desporto feminino se encontra em eterna desvantagem quanto ao masculino. “Futebol feminino não tem público, nem dá dinheiro”, dirão muitos. Contudo, entra aqui a eterna rasteira: será que é o público que não tem real interesse no desporto feminino ou será que é a falta de investimento, de patrocínios, de visibilidade televisiva e publicitária e demais fatores de mediatização do desporto que provoca esse desinteresse? Será que se existissem mais marcas a apostar em equipas femininas, mais investimento dos clubes nestas equipas, melhores condições de trabalho para as atletas profissionais e mais cobertura dos media, não existiria um maior interesse do público? E será que os homens têm tanto receio de perder o domínio absoluto de um universo e visibilidades que foram só seus desde sempre que preferem ridicularizar as atletas femininas em vez de lhes dar oportunidades iguais? (sobre isto, aconselho-vos vivamente o filme “A Guerra dos Sexos” que conta a luta pela igualdade de Billie Jean King, uma das estrelas do ténis profissional nos EUA, nos anos 70).

Esta campanha não serve apenas para falar sobre patrocínios. Serve também para questionarmos todas estas ideias e construções feitas em torno do desporto feminino. Resumindo: será que o interesse do público não existe atualmente de forma mais massiva apenas porque são mulheres que estão em campo? Ou será que a falta generalizada de valorização e validação destas atletas por quem faz girar a grande máquina do negócio do futebol não é, também, um incentivo à depreciação destas jogadoras e das suas capacidades? Será que se as oportunidades para atletas fossem iguais, independentemente do sexo, os resultados seriam diferentes? Para sabermos a resposta é preciso que aconteça.

In http://expresso.sapo.pt/

Sandra Costa

O futebol faz parte da minha vida. Desde cedo que jogo futebol e decidi criar o Portal Futebol Feminino em Portugal porque senti que ninguém conhecia, sabia ou falava de futebol feminino.

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