Os Perigos para o Futebol Feminino em Portugal

Este artigo foi publicado há um mês atrás, no blog Futebol Apoiado, pelo actual treinador da União Recreativa de Cadima que milita no Campeonato de Promoção (2ª Divisão), Filipe Silva.

Algarve

Um dos problemas da sociedade é viver com as ideias dos outros em vez de reflectir e raciocinar. Um dos graves problemas da Comunicação Social é influenciar a sociedade, de forma positiva ou negativa, passando a informação consoante as necessidades noticiosas.

Centrando a linha de pensamento na introdução acima, é importante informar, e definir, que, em Portugal, apenas uma minoria conhece a realidade do Futebol Feminino e, pior que isso, não sabem a dificuldade que existe em mais de 90% das equipas nacionais, nem a forma como são geridas.

Depois da fantástica qualificação da Selecção Nacional Feminina para o Campeonato da Europa de 2017 e da entrada de Sporting Clube de Braga e Sporting Clube de Portugal no Campeonato Nacional de Futebol Feminino, criou-se a ideia que tudo corre bem e que os clubes têm todo o apoio para crescerem. E o perigo começa aqui. Apesar do grande trabalho que a FPF está a realizar, existe um hiato na forma como os clubes realizam e processam as suas equipas.

A primeira grande dificuldade existe logo na imagem negativa que mentes fechadas atribuem ao Futebol Feminino, e isso inclui, não só o público, como dirigentes e treinadores dos próprios clubes.

Um segundo obstáculo centra-se na questão dos apoios dados para a área de treino. É incrível a forma como a maioria dos clubes, com Futebol Masculino, encaixa a equipa Feminina no planeamento, como se fosse um fardo para a estrutura e não têm noção da responsabilidade que isso acarreta e dos problemas que isso causa.

No seguimento das dificuldades em conseguir balneários e campo para treinar, encontramos os Treinadores que tentam construir uma equipa sénior feminina à imagem do Futebol Masculino e, aqui, temos um impasse gritante para a evolução do Futebol Feminino. Integrar e treinar jogadoras numa equipa com idades compreendidas entre os 15 e 40 anos, maioritariamente sem formação futebolística, é uma tarefa que obriga a um conhecimento e compreensão que vai muito para além da técnica e da táctica. A Formação do Treinador ultrapassa as fronteiras do treino. Um Treinador de Futebol Feminino treina todos os escalões no mesmo treino, isto é, tem de ensinar jogadoras, que sendo juvenis, juniores e seniores, já treinam no escalão sénior, mas com comportamentos futebolísticos de Infantis, Iniciadas ou Juvenis. Esta conjugação obriga a entrar numa performance mais holística, de gestão pessoal, interpessoal, de recursos humanos e na vida pessoal.

Cadima

O perigo reside em queimar etapas de Formação, obrigando jogadoras a partir dos 15 anos, que iniciam actividade num clube enquanto seniores, sem conhecimento futebolístico prévio, que não estão despertas nem treinadas para questões técnicas, tácticas e físicas. O treino passa a estar condicionado entre aprendizagem básica e semi-profissional, no sentido do bom desempenho e da performance desportiva.

A qualidade está a subir, a Formação que se iniciou dará frutos dentro de 6 a 9 anos, mas a maioria dos clubes não tem capacidade para formar, não tem tempo, espaço, vontade, recursos humanos e competência. O que pode levar ao afastamento de inúmeras equipas do Campeonato Nacional nas próximas épocas. Por exemplo, imaginemos que um clube de I Liga, em Coimbra, decide formar uma equipa Feminina sénior. É fácil perceber que as equipas da zona centro, como Cadima, Condeixa, Lordemão, Poiares e Ferreirense, perderiam jogadoras não só pela qualidade, mas também pela visibilidade, o que causaria enormes dificuldades em criar novas equipas competitivas por não se apostar na Formação específica de Futebol Feminino. O perigo de perder jogadoras existe para todas as equipas, mas para quem não faz Formação o problema de fechar portas é bem maior.

Daí defender que qualquer equipa que tenha um plano estratégico e queira crescer deve, obrigatoriamente e no mínimo, ter dois escalões com o máximo número de atletas possíveis, até sub-16 e mais de sub-16.

Julgo que ao não cumprir a maioria destas preocupações que partilho, a desmotivação e os resultados, num curto espaço de tempo, acabarão por definir uma linha de equipas nas cidades com maior população na zona litoral, levando ao afastamento de muitas equipas de locais em que a densidade populacional é menor.

De qualquer forma, da próxima vez que observar um jogo de Futebol Feminino, lembre-se que em campo poderá não estar uma jogadora de futebol mas sim, uma Adolescente ou Mulher, que tem paixão por jogar futebol e está a iniciar a primeira ou segunda época futebolística.

Filipe Silva

FilipeSilva

In http://futebolapoiado.blogspot.pt/

Joana Lima

Desde 2011 comecei a assistir a alguns jogos na TV. Depois da final da Champions, apaixonei-me por este desporto. Não escrevo com o Novo Acordo Ortográfico.

One Reply to “Os Perigos para o Futebol Feminino em Portugal”

  1. Totalmente de acordo, acrescento que nos diferentes escalões deveriam de jogar futebol de 11, como no masculino, isso já não iria empurrar as atletas para o escalão sénior, que é único que joga futebol de 11, aqui a FPF cometeu uma falha grave ao implementar a competição de juniores em futebol de 9 em vez de 11, assim como ainda permite que as associações continuem a brincar com futebol de 7, uma vez que podem recrutar jogadoras de diversos clubes no mínimo teria de ser futebol de 11, apesar de existir um campeonato júnior de futebol de 9 continuam a insistir no de 7, são resistências de associações ultrapassadas que não acompanham a evolução dos tempos e continuam teimosamente machistas e donos do seu próprio quintal, os apoios dos clubes podem ter diversas formas mas na prática são muito escassos e continuam a cobrar inscrições e taxas, seguros desportivos demasiado fracos. Falta um plano geral de formação entre outras coisas, para não me alongar mais.

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