A radiografia às equipas da Liga Allianz – treinos, logística e apoio clínico (I), por Maria João Xavier

Vamos hoje dar o pontapé de saída na apresentação e partilha da informação que as equipas nos disponibilizaram para este nosso desafio radiológico da Liga Allianz.

Propomo-nos realizar alguns passes em profundidade, a começar pelas questões associadas aos treinos, à logística e ao apoio clínico disponibilizado às equipas em contexto de treino e jogo. Desde logo o que nos chama a atenção, mais que o número de treinos semanais que as equipas realizam são as limitações para treinar, seja no campo onde jogam enquanto equipa visitada, seja na necessidade de partilhar o campo com outras equipas de formação do clube.

Há que convir que treinar 2/3 vezes por semana em meio campo (ou mesmo num campo de futebol 7, realidade de uma das equipas) não vai permitir que o treino tenha o mesmo resultado que dispor do campo inteiro. E essa é a realidade de outras 4 equipas que participam na Liga Allianz (duas partilham o campo com as suas equipas juniores femininas e outras duas com outras equipas de formação do clube).

Ou seja, ao todo, 5 equipas (50% do total das equipas que nos disponibilizaram informação) não dispõem de campo inteiro para realizar os seus treinos semanais e, desta forma, acreditamos que as suas estratégias podem ficar condicionadas para os jogos ao fim-de-semana.

Ora, com estas limitações de espaço para treinar, é natural que o número de treinos também seja adaptado à disponibilidade existente em cada clube.

Das 4 equipas que partilham o campo de treino e a outra equipa que treina em campo de futebol 7, 4 treinam três vezes por semana, com horários a começar entre as 20h30 (3 equipas) e as 21h30 (1 equipa). A equipa restante do grupo que partilha o campo treina 4 vezes por semana (hora de início às 20h30).

Uma equipa treina 5 vezes por semana e encontramos ainda mais 3 equipas que efetuam 4 treinos por semana, com horários de início às 9h30, 16h30 e 21h15.

Há, no entanto, a salientar que das 6 equipas que treinam 3 vezes por semana, em duas delas há a preocupação de realizar um treino adicional sempre que não há jornada no fim-de-semana seguinte.

De uma forma geral, os clubes disponibilizam à equipa material desportivo para a realização dos treinos com a qualidade que se exige para quem compete ao mais alto nível nacional, sendo que em 2 clubes há a disponibilidade de utilização de ginásio às atletas.

O apoio clínico revela uma enorme evolução face ao que se observava há uma década quando tínhamos curiosos a tomar conta da “saúde” das atletas. Não pretendo melindrar ninguém mas a realidade é que muitas situações se prolongavam por falta de um diagnóstico correto e respetivo encaminhamento para o tratamento adequado. Mas, é a esses curiosos se deve (e muito) a recuperação de um sem número de atletas mas a exigência mudou. São cada vez mais os profissionais diferenciados que dão apoio às equipas, seja na presença nos treinos seja no acompanhamento aos jogos. Algumas equipas celebraram acordos com clínicas privadas para dar seguimento à recuperação das suas atletas dentro do que se exige para o retorno à competição sem limitações.

Sustentado nas informações transmitidas pelos clubes, considero que as limitações não se resumem à duração ou quantidade de treinos, mas também há que considerar a limitação das próprias atletas, que por questões académicas ou profissionais podem não estar presente em todos os treinos e, eventualmente, em alguns jogos, dependendo se é visitado ou visitante. Serão poucas as equipas em que esta realidade é inexistente e conseguem, semana após semana ter todas as atletas disponíveis.

Daí que, por vezes, o mais importante é recuperar as atletas invés de estar a alargar o número de treinos por semana. Não se pode exigir que atletas que trabalham um dia inteiro tenham a mesma disponibilidade física (e mental) para abordar um treino que não começa antes das 20h face a atletas que só têm a preocupação de treinar e jogar, semana após semana e que a essa hora já estão despachadas dos seus treinos. São cenários completamente desiguais e que tem reflexos no outcome das equipas.

A abordagem das atletas deve ser sempre a mais profissional possível (só assim se pode aspirar a evoluir) mesmo sabendo da enorme desigualdade de oportunidades. Os clubes fazem o que podem (às vezes o impossível) para proporcionar condições mínimas às suas atletas mas não é tarefa fácil. Alegra-me e dá-me alguma esperança ter conhecimento que algumas autarquias têm o cuidado de apoiar as suas equipas mais representativas e dotar as equipas de condições próximas das ideais para a prática desportiva. Era bom que fosse extensível a mais clubes/equipas.

Por vezes coloco-me a questão de qual seria a evolução de todas as atletas que competem na Liga Allianz se todas tivessem a mesma igualdade de oportunidades. Acredito que, a médio prazo, esta igualdade de oportunidades será uma exigência das atletas.

Um exercício simples: pensemos em todas as seleções de formação que Portugal tem e na qualidade das suas atletas (cuja responsabilidade na formação é dos clubes). É certo que nem todas chegarão a atletas de elite. É, também, certo que algumas ficarão pelo caminho. É, ainda, certo que outras irão continuar a carreira no estrangeiro conciliando a vida académica ou abraçando o profissionalismo. Mas é, ainda, mais certo que os clubes que atualmente mais e melhores condições oferecem não irão conseguir absorver todas essas atletas.

É um enorme desafio que se coloca aos clubes que estão na Liga Allianz e aos que aspiram lá chegar.

In http://passesemprofundidade.blogspot.pt

AS

Desde sempre que jogo Futebol, mas nunca fui federada. O Portal Futebol Feminino em Portugal entrou na minha vida após uma pesquisa que estava fazer sobre o Futebol Feminino, e então cá estou a colaborar.

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