O (meu) reconhecimento, por Maria João Xavier

A minha forma de estar e os princípios que me foram incutidos pelos meus progenitores dizem-me que o reconhecimento de um conjunto de individualidades que dedicaram parte da sua vida (algumas continuam sem esmorecer) ao futebol feminino nacional é da mais elementar justiça. Algumas chegam mesmo a confundir-se com a evolução e crescimento do futebol feminino, década após década. Atravessaram e viveram a sua implementação enquanto atletas e mais tarde enveredaram pelo dirigismo ou pela orientação de equipas.
Conheço umas quantas que se enquadram no descrito acima e, algumas delas, marcaram-me profundamente nos meus tempos de atleta e que muito contribuíram para a minha formação desportiva e, também, pessoal.
Para inicio de conversa, começo este “reconhecimento” por uma das que mais me marcou e com quem aprendi coisas importantes que repliquei nas minhas curtas passagens pelo dirigismo ativo, mas mais importante que isso, que contribuíram para o meu crescimento pessoal.

Conheci a Anabela Mendes no longínquo ano de 1992, quando ingressou no Sporting Clube de Portugal. Não a devo ter defrontado muitas vezes mas fizemos bem mais que duas dezenas de jogos como colegas de equipa. Não fomos as melhores amigas nesse período (aliás, bem longe disso, falávamos o estritamente necessário e só o que dizia respeito à equipa) e demorámos alguns anos a construir a nossa relação de amizade.
Não me irei debruçar pelo seu percurso enquanto atleta, que é vasto e com passagem por vários clubes pioneiros no futebol feminino nacional. O que me leva a escrever estas linhas foi o trabalho por ela desenvolvido, em dois momentos diferentes, no Clube Futebol Benfica. Dois períodos diferentes mas que deixaram marcas que ninguém pode apagar. O Clube Futebol Benfica alcançou as suas maiores conquistas sob a sua batuta. Muito lhe é devido por manter a equipa coesa, organizada e focada nos objetivos. Isto de gerir um grupo de mulheres e raparigas não é uma tarefa fácil. Iluda-se quem pensa que é o mesmo que lidar com homens e rapazes.
A Anabela geriu uma equipa amadora de forma profissional e quem não percebeu que este era o caminho incompatibilizou-se devido às enormes exigências e responsabilidades que sempre coloca no que faz. Algumas atletas perderam a oportunidade de crescerem e poderem aspirar a outros desafios. Não esperassem grandes sorrisos e manifestações de euforia quando no desempenho das suas responsabilidades desportivas. Esperassem sim, exigência, rigor e competência. O conhecimento da realidade do futebol feminino nacional foi uma enorme vantagem para gerir o seu grupo de trabalho, de articular a equipa com os objetivos do próprio clube e de comunicar com quem tinha o poder de decisão, em ultima instância, foram sempre a sua imagem de marca. Não deixava, fosse qual fosse a circunstância, de manifestar a sua opinião face a determinada situação e sugerindo alternativas para a resolução. Por vezes, não era a opinião que quereriam ouvir mas era a mais sensata e conhecedora. As emoções não se sobrepunham à razão quando se tratava de proteger e defender o seu grupo de trabalho. Causou-lhe alguns amargos de boca mas no final, o desenrolar da situação dava-lhe a razão.

Decidiu, ainda no decorrer da época passada, colocar um ponto final na sua colaboração com o Clube Futebol Benfica depois de muitos anos dedicados à causa. O futebol feminino nacional perdeu, pelo menos enquanto dirigente, uma pessoa perspicaz, assertiva e conhecedora do que pode o futebol feminino nacional evoluir nos próximos anos. Os (as) dirigentes mais novos(as) teriam muito a aprender com a sua larga experiência.
Não nos voltámos a cruzar desportivamente mas fora deste âmbito cruzamos-nos em muitas situações, algumas delas perfeitamente dispensáveis dada a gravidade das mesmas. Nem nestas circunstâncias deixamos de conversar e pensar sobre o futebol feminino nacional. Fazia-nos bem, permitia-nos aliviar a mente para as situações menos boas. Atrevo-me a dizer que foram essas situações mais desagradáveis e acabaram por fortalecer a nossa relação de amizade.

Por tudo isto e muito mais, deixa-me dizer-te Anabela, que é um enorme prazer poder escrever neste espaço de partilha e troca de ideias mas é muito mais reconfortante saber-te por perto, a exemplo de outras  situações, nos momentos de maior “aflição”.
Obrigada pela tua persistência, determinação e dedicação ao futebol feminino nacional!

Sandra Costa

O futebol faz parte da minha vida. Desde cedo que jogo futebol e decidi criar o Portal Futebol Feminino em Portugal porque senti que ninguém conhecia, sabia ou falava de futebol feminino.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *