Rute Costa em entrevista ao Remate Digital

Rute Costa tem 24 anos, é guarda-redes do Sporting de Braga desde 2016/17 e concedeu uma pequena entrevista ao site Remate Digital.

Começou a jogar no CP Martim e inicialmente até era avançada, rumou depois ao Boavista onde conquistou a Taça com apenas 19 anos, tendo ainda passado pelo Albergaria antes de chegar ao Braga.

Nesta entrevista abordou então alguns dos momentos mais importantes da sua carreira, o estado do futebol feminino português, entre outros assuntos.

RD: Como surgiu a tua paixão pelo futebol e quando começaste a praticar a modalidade?

Rute: Desde pequena que sempre tive mais afinidade com rapazes do que com raparigas, por isso tive que me adaptar às brincadeiras deles que passavam essencialmente por jogar futebol, surgindo então um gosto pela modalidade. No entanto, em termos desportivos estive muitos anos ligada ao voleibol e a ida para o futebol, surgiu acidentalmente. A minha equipa de Voleibol só tinha o escalão de juniores e tinha um convite que não podia aceitar pela incompatibilidade entre a prática desportiva e os compromissos escolares. No final dessa época desportiva, participei num torneio de futsal por brincadeira e acabei por ser convidada a fazer as captações na CP Martim. Na altura era uma miúda de 16 anos que vinha do Voleibol para jogar Futebol numa equipa de Seniores que atuava no Campeonato de Promoção, aspirando subir à Primeira Divisão.

RD: Desde início quiseste ser guarda-redes ou essa vocação só surgiu mais tarde?

Eu não fazia ideia de qual a minha posição no Futebol, após as captações fiquei como avançada na equipa e a vocação para Guarda-Redes surgiu mais tarde, pelos olhos do Mister Bento – técnico principal da CP Martim naquela época.

RD: Como foi conquistar a Taça de Portugal pelo Boavista com apenas 19 anos?

A conquista da Taça de Portugal foi dos momentos mais bonitos de glória que vivi no futebol. Jogar no Estádio Nacional é um privilégio que poucos atletas têm e vencer uma competição nacional tão mítica foi sem dúvida um dos momentos altos da minha carreira desportiva.

RD: Sentes que existiu uma evolução considerável nos últimos anos no futebol feminino português? Se sim, em que aspectos?

Sem dúvida. A aposta dos clubes “grandes” na modalidade veio possibilitar uma melhoria das condições de prática, ao nível dos recursos espaciais, materiais e humanos. Com todo o respeito pelos clubes amadores, muitas vezes são vividas condições extremamente pobres na modalidade. As jogadoras mal têm material de treino, treinam poucas vezes por semana e em horários completamente desajustados, não têm uma remuneração pelo seu trabalho, dedicação, esforço e sacrifício, nem pelo menos ajudas de custo. É necessário compreender que as condições de prática são fundamentais para que as atletas possam crescer nas componentes física, técnica, táctica e psicológica. A profissionalização é o único caminho capaz de promover um crescimento da modalidade.

RD: Na tua opinião o que tem faltado ao Braga para conquistar o título nacional?

Não é que na minha opinião haja realmente algo que faça falta. O projeto está muito bem delineado desde o início, os objetivos do clube estão sempre bem definidos e estão reunidas todas as condições para que haja conquista de títulos nacionais. Contudo, fazendo uma retrospectiva percebesse que não houve eficácia nos momentos decisivos, por vezes com alguma falta de sorte à mistura, outras vezes mérito dos adversários que nos roubaram pontos ou de uma incapacidade momentânea de fazer mais e melhor.

RD: Que objectivos pretendes e sentes que conseguirás alcançar durante a tua carreira?

Todas as épocas eu defino os meus objetivos atendendo às minhas possíveis conquistas individuais e coletivas. Por isso, atendendo ao contexto em que me encontro pretendo a nível individual vencer pela terceira vez consecutiva o Prémio de Melhor Guarda-Redes da Liga – atribuído pelo Sindicato de Jogadores Profissionais e estar presente no Melhor Onze da Liga – reconhecimento dado às atletas pela Federação Portuguesa de Futebol nas Quinas de Ouro. Por outro lado, fazer o maior número de jogos possíveis pelo SC Braga e estar presente em alguns dos onzes da Seleção Nacional. A nível coletivo está em causa a conquista dos três troféus nacionais – Supertaça, Liga BPI e Taça de Portugal.

RD: Qual foi a sensação de estar presente na primeira participação de Portugal numa fase final de um Europeu?

Foi sem dúvida o meu momento alto ao serviço da Seleção Nacional. Todas as jogadoras portuguesas ambicionam chegar a esse patamar, o de representar o nosso país. Porém, eu e aquele grupo de jogadoras tivemos um privilégio maior. Representar Portugal ao mais alto nível numa competição europeia. É algo que não se esquece! Estar num contexto de altíssima competição está ao alcance apenas de algumas.

RD: O que falta ao futebol feminino português para atingir patamares superiores? O que tem de ser melhorado ou acrescentado?

Bom, é evidente que a modalidade está em constante crescimento e evolução. A profissionalização por parte de algumas instituições – no caso SC de Braga, Sporting CP e SL Benfica – é como construir o telhado de uma casa que precisa claramente de paredes que a suportem. Portanto, na minha opinião é importante esta profissionalização da Liga Feminina Portuguesa, é necessário que mais clubes apostem na modalidade melhorando as condições de prática às atletas, mas também é necessário investir na formação, aumentar o número de praticantes e incrementar a qualidade das competições existentes para todos os escalões.

RD: Tens alguma história engraçada ou caricata que tenhas vivido no mundo do futebol que nos possas contar?

Bom, todos nós passamos por alguns momentos engraçados ou caricatos na vida. Há dois momentos que provavelmente nunca esquecerei – o meu primeiro golo sofrido e um pseudo fora de jogo na época passada contra o C Albergaria. Então, o meu primeiro golo sofrido foi num livre no limite da grande área, no qual eu fiz a barreira e depois fiquei posicionada atrás dela facilitando o trabalho da jogadora que ia bater que só teve que rematar para o lado que não tinha ninguém…

Ainda estou para perceber como é que eu não tinha noção naquela altura que de um lado era eu e do outro a barreira! O pseudo fora de jogo surge num jogo em casa do Albergaria, na qual a equipa estava a acusar talvez pressão, a deixar o adversário crescer e há um passe em profundidade que eu controlo fazendo com que a avançada deixe de vir na pressão. No entanto, uma colega minha gritou de forma tão convicta que era fora de jogo que eu inocentemente ajeito a bola com a mão para sair a jogar longo. A juíza da partida veio a correr ter comigo a questionar a minha ação e eu disse que era fora de jogo. Mas ela não tinha apitado nem o auxiliar levantou a bandeirinha… Tive sorte que ela foi compreensiva e eu senti-me envergonhada com aquilo!

RD: Quais são as tuas referências no futebol feminino e masculino?

A minha única referência no Futebol é o Andrés Iniesta pela sua inteligência e capacidade de decisão. Admiro-o pelo seu talento e sobretudo, pela forma como eternizou a sua imagem no desporto rei.

In https://rematedigital.pt

AnaSilva

Adepta do desporto em geral, mas apaixonada pela modalidade REI (Futebol). Passei a fazer parte deste projecto Portal Futebol Feminino em Portugal com a intenção de poder ajudar na divulgação e promoção do Futebol Feminino.

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