“Uma vez, num jogo, chamaram-me avó”, Rosa Cruz

Foto: Liliana Costa/TSF
Foto: Liliana Costa/TSF

Não existirão muitos casos como este em todo o mundo. Em maio último, jogou alguns minutos na meia-final da Taça de Portugal, frente ao Braga. Aos 54 anos, continua a ser jogadora federada e a contagiar todos com a sua energia e humor

Rosa Cruz vai fazer 55 anos daqui por dois meses. E, por esta altura, ainda está a ponderar se continua a jogar futebol ou se pendura definitivamente as chuteiras. Perto dos 40 anos, decidiu retirar-se e, naquele que deveria ser o seu último jogo, sofreu a única expulsão da carreira. Ao fim de pouco tempo, voltou atrás na decisão de abandonar e regressou aos treinos, com a camisola da Casa do Povo (CP) Martim, seu atual clube. “O mais certo é não continuar. Não sei… Depende das guarda-redes que vierem para a equipa”, diz-me, recordando a meia-final da Taça de Portugal, de maio último, entre o Braga e o CP Martim, em que alinhou alguns minutos nos descontos. “Aquela gente toda a bater palmas quando eu entrei… fogo… até parecia que estávamos a ganhar o jogo. Perdemos por 0-9.”

Quantos anos tem como futebolista federada?

Sou jogadora federada há 31 anos. Quando se anda numa coisa que se gosta… Ia sempre aos treinos: três vezes por semana. Felizmente, não tenho tido problemas de saúde, sinto-me bem.

E conseguia acompanhar as miúdas?

Sim. E ia sempre para o banco. E sempre que entrava, parece que era a primeira vez que estava a jogar à bola.

O que a manteve ligada todos estes anos ao futebol?

Gostar. Mas gostar mesmo muito! Acho que é o que falta a algumas meninas agora. Naquela altura não tínhamos condições para treinar, agora têm tudo. Sabe que só comecei a jogar a guarda-redes no CP Martim? Eu era ponta de lança, depois faltou uma guarda-redes, eu disse que não me importava de ir para a baliza. Depois, sabe como é, a idade avança, vem-se para trás um bocadinho [risos]. O primeiro jogo foi contra o Várzea, sofri logo 12 golos [risos].

Isso desmoraliza qualquer um…

Já sabíamos que o Várzea era uma equipa muito forte… Eu era a mãe delas, sempre a mais velha nas equipas por onde passei. Uma vez, num jogo, chamaram-me avó [risos]. Levo tudo isto para a brincadeira, se não fosse assim já tinha desistido há muito tempo.

Gosta mais de ser avançada do que guarda-redes?

Igual, gosto das duas posições. Não sei como ainda corro tanto às vezes. Eu trabalho numa empresa de automóveis, onde tenho muitos carros e camiões para lavar, mas eu gosto de me mexer e do trabalho que tenho. Se fosse para trabalhar numa fábrica, fechada, sempre no mesmo sítio, não ia gostar.

Como nasceu esse seu gosto pelo futebol?

Eu tenho quatro irmãos e uma irmã. Ela tem mais jeito para a cozinha e do que eu gostava mesmo era de jogar à bola com os meus irmãos. A coisa que mais triste me punha era não poder ir jogar com os rapazes na escola.

Os seus pais não lhe ralhavam de só andar a jogar à bola com os rapazes na rua?

O meu pai estava na França, a minha mãe tinha de tratar dos seis filhos, desde que eu fizesse o trabalho em casa, não havia problema nenhum.

Tem conseguido conciliar sempre o futebol e o trabalho?

Tem de ser. Não há ninguém que goste mais de futebol do que eu. Acho que já nasce com a pessoa. Gosto do ambiente do futebol, das amizades que se ganham. Para qualquer lado que vou, sou sempre bem recebida e isso dá-me muito gozo.

E tem paciência para lidar com as jogadoras, todas muito mais novas do que a Rosa?

Quando estou a jogar, até me esqueço da idade que tenho. Algumas tratam-me por você, mas não gosto nada. É verdade que algumas podiam ser minhas netas, mas eu nem filhos tenho, quanto mais netos [risos].

Não ter tido filhos deu-lhe mais tempo para o futebol, eventualmente…

Sim, que eu tive colegas que casaram e jogaram só mais um aninho ou dois. A vida depois é outra. Eu não quis casar, casei com o futebol.

Nunca pensou em tirar o curso de treinadora?

Não sei se dava, enervo-me muito e não gosto de ver as jogadoras a brincar. Hoje em dia ainda se brinca muito no treino.

Então, ia ser uma treinadora muito disciplinadora…

Ficava logo sem jogadoras [risos]. Ou faço a sério ou não faço.

SAIBA QUE

Rosa Cruz cresceu em Cabreiros, no concelho de Braga, e tem passado os últimos 17 anos com a camisola da Casa do Povo de Martim, localidade no concelho vizinho de Barcelos. Benfiquista, teve como referência Nené nos tempos em que jogava como ponta de lança. Rosa Cruz acredita que se tivesse representado clubes maiores, teria sido chamada à Seleção Nacional. “Era muito rápida”, comenta. Sobre a grande evolução que o futebol feminino tem tido, só um reparo: “Não concordei com a entrada direta do Sporting e do Braga no campeonato nacional. Tudo bem que faziam falta, mas nós, pequenos, andamos uma vida a lutar para subir. Os grandes chegam e já está!”

In ojogo.pt

AS

Desde sempre que jogo Futebol, mas nunca fui federada. O Portal Futebol Feminino em Portugal entrou na minha vida após uma pesquisa que estava fazer sobre o Futebol Feminino, e então cá estou a colaborar.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *