«A Escola conseguiu criar uma estrutura para competir, com um esforço muito louvável»

Ernesto Catarino é o treinador que no final da temporada que terminou no último fim-de-semana, levou a equipa de futebol 11 de Escola de Futebol Feminino de Setúbal (EFFS) à I Divisão nacional, com uma jornada de antecipação face ao calendário. A conquista é, sem dúvida, relevante no cenário do desporto setubalense, no plano geral, não apenas no panorama feminino, pelo valor demonstrado em campo no «nacional» de Promoção e, até, pelo simples facto de na próxima temporada a EFFS ser a única equipa com sede a Sul do Tejo que vai ter lugar no escalão principal. O treinador considera que, na base do sucesso desta época está o esforço levado a cabo por todos para criar uma estrutura capaz de suportar as exigências da competição, num momento em que as dificuldades para conseguir apoios são as que todos conhecem.

Na próxima temporada, Setúbal vai ter uma equipa de futebol de 11 na I Divisão nacional de «femininos», algo que no panorama do desporto da cidade é, inevitavelmente, muito relevante e merece colher os devidos méritos. A proeza tem autor: a Escola de Futebol Feminino de Setúbal (EFFS) que foi orientada nesta época pelo treinador Ernesto Catarino, uma «velha raposa» destas andanças, com muitas experiências em ambientes desportivos muito diversos entre si. Foi com ele que falámos para perceber o que se está a passar no clube e o que se espera no futuro próximo:

«O SETUBALENSE»: Segundo sabemos, muitas jogadoras da EFFS têm, e mantêm, o berço no futsal. Como foi feita a adaptação para o futebol de 11?

ERNESTO CATARINO: Era, para a maioria, um cenário diferente daquele a que estava habituada mas a verdade é que as jogadoras desta época mantiveram o ritmo alto que traziam do futsal e entraram depressa nas características do futebol de 11, tendo o treino sido assente, claro, nesta vertente.

«O SET.»: qual é o perfil-padrão da jogadora de futebol em termos sociológicos»

E.C.: Há muitas jovens, mas de uma forma geral podemos dizer que o perfil é o da atleta/trabalhadora.

«O SET.»: As condições de treino em Setúbal ressentiram-se de dificuldades devido a escassez de espaços? Disputar a Fase Final quase sempre na Baixa da Banheira não deve ter sido benéfico…

E.C.: Ao longo da época treinámos especialmente nos campos do 1.º de Maio da Varzinha, na Bela Vista e no campo de «Os Pelézinhos», na Várzea, onde também jogámos algumas partidas fase regular do campeonato de Promoção», mas na Fase Final era obrigatório jogar em relvado ou em sintético, com as dimensões regulamentares em uso na Federação Portuguesa de Futebol, e por isso acabámos por ser recambiados, passe o termo, para o Vale da Amoreira que era um dos poucos campos que estavam regularmente disponíveis. Ainda tentámos jogar no campo relvado da pista de atletismo, em Vale da Rosa, mas não foi possível.. Foram dificuldades, é verdade, mas que acabaram por dar mais força ao nosso grupo.

«O SET.»: O futebol feminino, a nível de «11», é uma aventura em Portugal?

E.C.: É quase uma aventura mas é praticável e pode progredir. Todavia, não é fácil conseguir uma continuidade efectiva de trabalho e, aqui, recordo que o 1.º de Dezembro, equipa que pode ser considera no expoente da modalidade, actualmente, montou uma estrutura semi-profissional, ou quase profissional, e está a passar por sérios problemas para a manter porque não é fácil reunir apoios. No nosso caso, a EFFS, não tinha essa estrutura essencial para competir mas conseguiu, com muito trabalho, reunir os apoios mínimos, com vários patrocínios, e conseguiu-se levar o projecto por diante e com bons resultados, como se vê. Já havia uma base forte para esta época, e recordo que antes a EFFS havia contado com jogadoras como a Jamila que foi jogar no estrangeiro e é «internacional» e a guarda-redes Patrícia Morais que é titular da equipa nacional de sub-19. Acima de tudo, o que vi foi muita dedicação e esforço de meia dúzia de pessoas que tudo fizeram para manter vivo o futebol de 11 feminino na cidade de Setúbal e manter este bonito projecto saudável. Outro aspecto relevante é o de esta modalidade ser praticada por raparigas e mulheres que adora jogar à bola e que colaboram activamente para manter as equipas à tona, a ponto de na EFFS haver três atletas que são dirigentes muito participativas e colaborantes com o presidente que está no clube desde o primeiro momento e que é, sem dúvida, o seu grande impulsionador.

«O SET.»: A realidade da I Divisão vai ser, forçosamente, muito diversa da do campeonato de Promoção…

E.C.: É outra, mais exigente. Não só no que requer de estruturas desportivas mas também na logística, e lembro que das dez equipas que estão no topo, sete delas estão situadas geograficamente acima de Aveiro.

«O SET.»: A propósito, como fizeram as deslocações?

E.C.: Basicamente, utilizámos o autocarro da Câmara Municipal e vamos ver se continua ser possível esse recurso, se bem que tenha alguns custos.

«O SET.»: No aspecto desportivo, qual é a ideia do plantel para a I Divisão?

E.C.: A base do plantel será a desta época mas contamos com a possibilidade de convidar três ou quatro jogadoras que já conheço.

«O SET.»: A I Divisão pode ser benéfica para o crescimento do clube ou é um risco?

E.C.: Será sempre bom, penso. Dá outra visibilidade à EFFS e, logo, possibilidades de alargar os apoios, se bem que as despesas previsíveis sejam maiores. No aspecto competitivo, a ideia é a de manter a equipa no topo e apenas isso. Já esta época, o nosso objectivo apontava somente para a participação na Fase Final da Promoção… O resto era um sonho que acabou por ser uma realidade. O campeonato de iniciação no futebol de 11, só há dois escalões, tem alguns problemas de calendário, com muitas interrupções entre os 21 jogos que realizámos, e por isso perde-se muito trabalho ao nível de treino.

«O SET.»: Falando desse aspecto, como vê a qualidade técnico-táctica da equipa que dirige?

E.C.: Está a crescer. Começámos do princípio, como já disse, aproveitando as jogadoras que havia e fazendo a integração das meninas do futsal numa modalidade completamente diferente, mas estas miúdas adaptaram-se muito bem, com rapidez extrema a um novo tipo de jogo e os resultados estão a ser óptimos ao nível da qualidade competitiva. Espero que a EFFS tenha ainda mais jogadoras a serem observadas pela FPF como já acontece, mpor exemplo, com a Ana Patrícia e a Carina.

«O SET.»: Um dos grandes problemas é o facto de não haver formação no futebol feminino. Como se sente um treinador com o fosso de idades nas equipas?

E.C.: Realmente, não há escalões de formação, embora a selecionadora Mónica Jorge esteja a tentar tudo para que seja criado um escalão de sub-18, de maneira atenuar esse fosso. Repare-se nos femininos uma menina de 13 anos de idade pode competir com uma mulher de 48 anos, como acontece na actualidade. A EFFS tem a Nadine, com 13 anos, que já foi titular e a Casa do Povo de Martim tem a guarda-redes Rosa, com 48 anos. Enfim, se a realidade é esta temos de nos adaptar, mas para um treinador é complicado fazer a gestão destes factos.

«O SET.»: É preciso ter duas linguagens e dois comportamentos…

E.C.: Isso! Em Setúbal tive a felicidade de liderar um grupo fantástico de pessoas que facilitaram essa gestão e a integração das miúdas do futsal foi óptima no aspecto formativo, que era a nossa grande preocupação. Mas não é fácil, realmente, trabalhar e ler psicologicamente, ao mesmo tempo, uma rapariga de 15 anos, ou menos, e uma mulher que já passou dos 40. Ainda assim, essa é uma grande motivação para um treinador de futebol feminino, quem é o que sou: encontrar os pontos de equilíbrio nessas diferenças numa equipa.

«O SET.»: É completamente diferente de treinar rapazes ou homens…

E.C. O dia da noite. As raparigas amadurecem mais cedo do que os rapazes – uma miúda com 13 anos tem a maturidade de uma rapaz com 16 ou 17 – e têm um sentido crítico muito apurado, fazendo, cedo, permanentes comparações entre os trabalhos dos treinadores que já conheceram. O treinador está sempre a ser avaliado por elas, especialmente pelas mais novas, e uma rapariga com 15 anos já pergunta porque é que se está a fazer determinado exercício… Tenho a ideia de que as raparigas, e aqui não estou a brincar, quando entendem «destruir» um treinador o conseguem fazer com muita facilidade.

In http://www.osetubalense.pt

 

Sandra Costa

O futebol faz parte da minha vida. Desde cedo que jogo futebol e decidi criar o Portal Futebol Feminino em Portugal porque senti que ninguém conhecia, sabia ou falava de futebol feminino.

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