A propósito das 500 vitórias da seleção nacional feminina dos Estados Unidos da América

Formação americana alcançou marca histórica frente a Portugal.

Foto: FPF

Não tendo sido o continente americano descoberto por portugueses (nem sobre a alçada portuguesa) na memorável época dos Descobrimentos, atrevo-me a dizer que Cristóvão Colombro passou anos suficientes em Portugal a estudar e a desenvolver um plano, na altura para alcançar as Índias, por rota alternativa quando “esbarrou” em terra e descobriu o Novo Mundo. Podia ter sido mais uma glória dos navegadores que saíram de Portugal, mas o Rei D. João II tinha outros interesses (descobrir um outro caminho que contornasse África, como foi depois alcançado por Vasco da Gama), pelo que não deu ouvidos a Cristóvão Colombo e este virou-se para nuestros hermanos.

Com esta muito resumida introdução histórica atrevo-me a dizer que sem Portugal os Estados Unidos da América (EUA) não existiriam e nem a seleção americana teria alcançado a marca histórica de 500 vitórias em 639 jogos. É um feito fantástico que merece uma celebração ao estilo tipicamente americano como se da descoberta de um novo continente se tratasse.

Mas o que me leva a escrever umas linhas parte de um conjunto de questões do género “E se…”. Note-se que a seleção nacional feminina dos EUA fez o seu primeiro jogo em 1985. Bom, a seleção feminina portuguesa fez o seu primeiro jogo em 1981, quatro anos antes. Daí que:

– E se, em 1983, a Federação Portuguesa de Futebol não tivesse dado indicação e terminado com as atividades da seleção feminina sem motivo que o justificasse?;

– E se, a exemplo do que ocorre nos EUA, as jogadoras portuguesas tivessem tido sempre as mesmas condições de crescimento e desenvolvimento das suas qualidades e aptidões?

– E se conseguíssemos alcançar o mesmo número de jogadoras (proporcionalmente ao nossa país, obviamente) que os EUA e, desta forma, “obrigássemos” os clubes a disponibilizar todos os escalões de formação e, ainda,  proporcionar mais e melhores condições às jogadoras da equipa principal?;

– E se… podia continuar por aqui fora que não concluiria coisa alguma, a não ser que a seleção portuguesa foi amputada em 10 anos de crescimento.

Mas há factos e certezas que nos permitem assumir, com uma margem de risco controlado que o futuro do futebol feminino nacional só poderá ser risonho, com todos os avanços e recuos inerentes aos processos de crescimento.

Senão vejamos o seguinte: em 2018 (ano civil e não época desportiva), a seleção nacional AA feminina disputou até ao dia 08/11/2018, 15 jogos internacionais de carácter oficial (5) e o dobro em encontros particulares (10) contra 11 seleções nacionais.

Destes 15 jogos, apenas Roménia (43º) e Moldávia (93º) estão abaixo de Portugal no ranking mundial (33º). Das selecções que estão acima, apenas três conseguiram derrotar a nossa seleção em 2018: EUA, Itália e Rep. Irlanda. Apenas contra os EUA a seleção nacional nunca conseguiu vencer nenhum dos sete encontros disputados sendo o resultado mais nivelado o registado no dia 8/11/2018, no Estoril.

Posso dizer que fui uma jogadora afortunada pois defrontei as várias selecções nacionais americanas entre 1994 e 2001 (6 jogos, 6 derrotas, 30 golos sofridos e 0 marcados) com um enorme sentimento de impotência face ao poderio norte-americano. O jogo só tinha um sentido, o esforço em tentar prolongar no tempo o aparecimento do 1º golo era o objetivo maior e a derrota era certa. Não obstante, em contrapartida ganhava-se muito nestes jogos contra os EUA (e outras selecções de igual calibre): experiência, ritmo de jogo, capacidade competitiva, crescimento colectivo e individual.

Ora, este tem sido exactamente um dos grandes trunfos desta seleção, não só o aumento do número de jogos internacionais, mas especialmente o confronto com selecções teoricamente mais fortes e que desafiam as nossas jogadoras a potenciarem as suas capacidades físicas e técnico-taticas.

Convém não esquecer que, em 2018, Portugal defrontou, além da campeã mundial em titulo, selecções como a Austrália (6ª do ranking mundial), em dois jogos e não perdeu nenhum. O mesmo com a Noruega (13ª), alcançando uma vitória merecida e, ainda, a China (19º), tendo vencido um e empatado outro. Não pode ser fruto do acaso. A consistência de resultados começa a aparecer gradualmente.

As jogadoras nacionais têm sido colocadas à prova em vários momentos com exigências diferentes e têm sabido dizer “presente” mesmo sabendo que temos uma Liga BPI que fica (ainda) aquém do que se pretende em termos de nível competitivo e que nela competem mais de 70% das atletas que integraram a última convocatória.

Não admira, nem aos mais distraídos, que o futebol feminino nacional comece a ter o destaque que necessita para crescer. As jogadoras assim o vão “exigir” através do seu esforço e dedicação em representação das cores nacionais e, também, os adeptos de futebol o que querem é assistir a bons espectáculos sem preocupação de qual o género que o disputa.

Tal como Cristóvão Colombo, as selecções femininas vão desbravar o seu caminho rumo ao sucesso e crescimento sustentado e de lá não mais irão sair.

Eu acredito e espero que todos os portugueses também!

In http://sjogadores.pt

AnaSilva

Adepta do desporto em geral, mas apaixonada pela modalidade REI (Futebol). Passei a fazer parte deste projecto Portal Futebol Feminino em Portugal com a intenção de poder ajudar na divulgação e promoção do Futebol Feminino.

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