As soccer girls que escolheram jogar em Portugal, Diário de Notícias

A falta de oportunidades nos EUA, a grande potência mundial da modalidade, trouxe-as para o nosso país. Três destas soccer girls jogam no Braga, duas no Sporting, e estão a adorar.

Há mais de quatro milhões de jogadoras de soccer (futebol) registadas no país que lidera o ranking mundial da modalidade na vertente feminina, os Estados Unidos da América. Mas menos de 200 representam os nove clubes da National Women Soccer League (NWSL), a liga profissional feminina. A esmagadora maioria fica de fora, como é o caso de Denali Murnan, Carly Gould e Hannah Kean, mais-valias do Sporting de Braga, líder da Liga portuguesa. E de Sharon Wojcik e Carlyn Baldwin, que jogam no Sporting.

No caso das bracarenses, todas já correram alguns estados em busca de uma oportunidade na América (Kean, então, correu muitos deles), mas ou aceitavam ficar sem contrato e nas reservas, sem perspetivas de carreira, ou emigravam como milhares de compatriotas. Estão em Braga à procura de romper com o domínio do Sporting nestes primeiros anos do futebol feminino versão 2.0 – era iniciada em 2016 com um plano da Federação Portuguesa de Futebol que está a dar uma grande força à modalidade.

“Temos de correr o país para captações em condições surreais. Às vezes, são 2000 raparigas para serem recrutadas 30 no final do treino”, conta ao DN Hannah Kean, 25 anos, a goleadora das arsenalistas (nove golos em 11 jogos). Goleadora e exploradora. “Corri o país todo com os meus pais à procura de uma oportunidade. Acabei por ter de sair”, conta a ponta-de-lança que chegou no verão das alemãs do USV Jena (“uma confusão, más condições e mau tratamento pessoal”). Antes, esteve uns meses nas reservas das Boston Breakers (uma das oito equipas fundadoras da NWSL, em 2013, que desistiu em 2018 por falta de apoio do proprietário), mas já tinha estado na Austrália (Melbourne Alaimen FC), Inglaterra (Newcastle, três meses enquanto estudava) e formou-se na Universidade San Diego State (conseguindo o diploma em Comunicação de Saúde Pública).

Esta é a solução mais comum para a maioria das jogadoras que não estão ligadas à federação e têm um estatuto à parte das demais. Nos Estados Unidos, a Liga é fechada (sem descidas) e paga os salários. O somatório da totalidade do plantel não pode ultrapassar os 350 mil dólares anuais (306,14 mil euros) e varia entre o salário máximo (44 mil dólares – 38,5 mil euros por ano) e o mínimo (13 750 dólares – 13,8 mil euros ano) fixados pelo regulamento. Até porque a II Divisão “é uma anedota”, acrescenta Murnan. “São três meses no verão, com várias séries que no fundo são vários pequenos campeonatos regionais muito fracos”, atesta a média que se formou em Finanças e Futebol na Universidade do Nevada, Las Vegas, e já teve experiências em Espanha (Saragoça), Israel (Ironi Ramat HaSharon) e Finlândia (ONS). “Vim para Braga porque o Miguel [Santos, treinador] viu os meus jogos com o Atlético de Madrid e Barcelona e ligou-me, porque eu não tenho empresário. Nem sei como é que arranjou o meu número”, ri-se a média de 25 anos.

Carly Gould dá uma pista: “O nosso agente [dela, de Hannah Kean e da canadiana Larisa Staub, também no Braga] conhece bem o Miguel, julgo que esteve cá em Portugal a treinar ou a fazer outra coisa qualquer. Foi assim que nos contratou, a mim e à Hannah.” A média de 23 anos tirou um mestrado em Gestão na Universidade de Brown enquanto subia escalões na formação.

As três jogadoras, que fazem a diferença no plantel, porque o sistema de formação americano é muito mais abrangente e eficaz (mesmo que depois não tenha onde colocar tanta atleta), olham para o futebol como uma atividade “para tentar criar um pé-de-meia”, mas sobretudo como uma forma de “conhecer locais e pessoas diferentes”. Ano a ano, até chegar o momento de olhar mais a sério para a vida, ou seja, abraçar uma profissão que lhes dê a estabilidade que o futebol nem de perto lhes oferece.

Para já, calhou-lhes uma cidade que “não é muito grande nem muito pequena”, como diz Murnan. “Todos se conhecem, as pessoas cumprimentam-se na rua, o ambiente é muito bom”, resume a centrocampista.
Competitivamente, querem chegar ao primeiro título nacional do clube. Para já, no final da primeira volta (11 jornadas), levam cinco pontos de avanço sobre o até esta época imbatível Sporting. E já ganharam a Supertaça no início da época.

A dupla americana do Sporting

Sharon Wojcik e Carlyn Baldwin, jogadoras do Sporting, nasceram e cresceram em Chantilly e Reston, duas localidades do estado norte-americano de Virginia que distam cerca de 15 quilómetros, mas quis o “destino”, como as próprias dizem, que se conhecessem e fossem jogar juntas do outro lado do Atlântico.

Oriundas de uma das grandes potências do futebol feminino, três vezes campeã mundial (1991, 1999 e 2015) e medalhada nas sete edições do torneio, ambas rumaram ao Velho Continente para abraçar o profissionalismo, primeiro na Suíça, agora em Portugal, mas sempre com dois sonhos americanos em mente: o do regresso ao país do soccer e à respetiva seleção nacional.

Carlyn, a mais jovem (22 anos), foi a primeira a chegar a Alcochete, no verão do ano passado, depois de uma experiência de uma época no Young Boys. Um ano e meio depois considera a “experiência fantástica” e destaca “a final da Taça de Portugal“, ganha ao Sp. Braga no prolongamento, como o ponto alto da estada no país. Para Sharon (25 anos), que tal como a compatriota também joga no meio-campo mas pisa terrenos mais adiantados, a passagem por Portugal, iniciada em janeiro, “está a correr bem e a ser divertida”.

Questionadas sobre o que as trouxe de uma potência do soccer feminino para um país em desenvolvimento na modalidade, Carlyn discorda que Portugal “tenha um nível mais baixo”. “Simplesmente a história do futebol feminino está mais estabelecida. O nível em Portugal é muito alto, há boas jogadoras. Estou muito grata por jogar num clube tão grande”, confessou a jovem internacional sub-20 norte-americana, complementada por Sharon, que fala em adaptação a “um novo estilo”.

“Em Portugal penso que se joga melhor sob pressão, desde trás, com a bola na relva, de pé para pé. Não é o estilo direto, de chutar e correr, que se vê nos Estados Unidos”, acrescenta a mais velha, após uma sessão de trabalho num relvado sintético em Alcochete. “Aqui podemos utilizar mais a criatividade, tanto coletivamente como individualmente. O futebol feminino nos Estados Unidos está mais estabelecido, mas em Portugal há mais ênfase no lado técnico do jogo”, considera Carlyn, que falou em inglês durante grande parte da entrevista ao DN mas que já é capaz de compreender e articular frases em português, estando mais adiantada do que Sharon nesse aspeto.

Sem esquecer a nação onde estão a família e os amigos de que sentem saudades, as futebolistas norte-americanas do Sporting dizem estar a “desfrutar” de Portugal. “O clima é muito bom e as pessoas recebem-nos bem e ajudam-nos”, frisa Carlyn.

“A comida é boa, as pessoas são boas, divertidas, e é um país relaxante, de que eu gosto. É agradável”, acrescenta Sharon, expressando-se em português para falar dos pratos que mais aprecia no nosso país antes de soltar uma gargalhada: “Bacalhau, salmão… com batatas fritas.”

“Gosto muito de bacalhau com natas e aquilo que comemos no Porto…”, acrescenta Carlyn, antes de ser complementada por Sharon: “Francesinha! É boa! Gosto muito!” “E… [faz gesto com a mão] pastel de nata”, conclui Carlyn, num ambiente de muito boa disposição.

Já bem integradas no seio do plantel leonino e adaptadas à “boa vida” que têm em Portugal, passeiam e vão à praia nos tempos livres, mesmo no inverno. E estão encantadas com o emblema que representam. “O Sporting, como clube, é algo que eu nunca tinha visto. A paixão é expressa em todas as modalidades, os adeptos apoiam toda a gente no clube, é realmente incrível. Nos Estados Unidos apreciam muito o futebol feminino, mas em Portugal e no resto da Europa os clubes estão estabelecidos há muitos anos e têm muita história, especialmente no futebol masculino”, confessa Sharon, fã de Messi e Iniesta. “Os adeptos são realmente especiais. Há pessoas que tanto nos vêm apoiar quando jogamos em casa como quando jogamos a quatro horas de caminho”, acrescenta Carlyn, que idolatra a antiga estrela da seleção norte-americana Mia Hamm.

O campeonato nacional feminino só regressa no dia 6 de janeiro. Por isso, o Sp. Braga vai passar o ano na liderança, com mais cinco pontos do que o Sporting, o segundo classificado.

In https://www.dn.pt

Sandra Costa

O futebol faz parte da minha vida. Desde cedo que jogo futebol e decidi criar o Portal Futebol Feminino em Portugal porque senti que ninguém conhecia, sabia ou falava de futebol feminino.

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