Cristiana Martins mostra que os sonhos não são impossíveis

 

Com apenas 14 anos, Cristiana Martins, é uma das promessas do futebol feminino em Portugal. Apesar de tenra idade têm dois objetivos bem definidos: entrar em Medicina Veterinária e chegar à Seleção A.

Falar de Cristiana é sinónimo de futebol os dois andam lado a lado. Muito antes de saber andar já dava “chutos na bola”. E a paixão pelo desporto rei é “culpa” do avô. Confessou-nos que “as pessoas que conheciam o meu avô diziam que eu tinha as “pernas dele.”” Contudo, o futebol é como uma tradição familiar “toda a minha família vive no mundo da bola, desde o meu avô, os meus tios, o meu pai e os meus irmãos”. Às vezes pedem-nos para fazer escolhas ao longo da vida, mas neste caso em especial, foi o futebol que a escolheu , e ainda bem.

Aos 8 anos começa a aventura. Começou por jogar no CADE ( Clube Amador de Desportos do Entroncamento) , numa equipa só de rapazes, “não havia equipa feminina para o meu escalão”, contudo confessa “sempre preferi jogar com os rapazes”. É sempre mais desafiante, sobretudo, quando nos dizem que o futebol “não é para meninas”. Depois de uma época no CADE ruma à CP Montalvo (Casa do Povo de Montalvo), equipa onde esteve duas épocas, ambas pertencem à AF Santarém. E como diz o ditado “um bom filho a casa torna” e assim foi, ao fim de dois anos, Cristiana regressava ao CADE. No final da época o Sporting CP estava a bater-lhe à porta.

O Sporting é a equipa do coração do avô, o homem que lhe mostrou o futebol, e por isso a chamada teve um sabor ainda mais especial. Em conversa com a Cristiana ela conta  “que foi um misto de emoções”, se por um lado estava feliz e orgulhosa, por outro sabia que a decisão teria algumas consequências. Esta decisão “iria mexer muito a nível financeiro e não sabia até que ponto os meus pais iriam poder aceitar”. Cristiana vive na localidade de Linhaceira, no concelho de Tomar, distrito de Santarém, e as deslocações nem sempre são fáceis. Como família unida que são “sempre falamos abertamente sobre tudo e sabia que os meus pais iam fazer de tudo para que o meu sonho se concretizasse” contudo, e apesar de muito nova, têm os pés assentes na terra e disse-lhes “se pudessem aceitar, ficaria muito feliz, mas se não pudessem eu compreendia, pois era um custo muito elevado”. Mas como sabemos, os pais fazem tudo pelos filhos, e o sonho de Cristiana era maior que qualquer outra coisa “os meus pais começaram a trabalhar mais horas para eu alcançar o que eu tanto queria, o Sporting” confessou-nos. No dia em que finalmente os pais lhe dizem o sim ”chorei de alegria”. Depois da determinação, coragem e empenho vem a recompensa e ”o símbolo que agora levo ao peito, foi graças ao esforço que eles fizeram por mim e agradeço-lhes por me ajudarem, bem como à minha família e aos meus amigos que sempre me apoiaram.”

Cristiana, assinou pelas sub-15 das leoas na época de 2018/2019. E apesar de todo este entusiasmo e agitação, não nos podemos esquecer, que é ainda muito nova e a escola é também uma das suas prioridades. A frequentar o 8ªano de esolaridade, a jovem avançada do Sporting, considera-se “boa aluna, esforçada e concentrada porque o tempo é pouco”, a vida dela é dividida entre Linhaceira e Lisboa, escola, treinos e jogos. E é preciso gerir tudo. Apesar, de ter pouco tempo está sempre disposta a ajudar os seus colegas. Quando não têm treinos “faço logo os trabalhos de casa para ficar descansada” , nos outros dias, chega dos treinos muito tarde e vai logo dormir, porque no dia a seguir à escola. Sabe da importância que a escola tem, sobretudo, quando se sonha em ser Veterinária , e tal como o futebol, não é fácil e é por isso que trabalha todos os dias.

E apesar de todos os altos e baixos “estes dois anos têm sido espectaculares” tem a oportunidade de vestir as cores do clube do coração e “tenho um grupo incrível de jogadoras, treinadores e dirigentes e é um enorme orgulho pertencer a esta família”.

O ano de 2019 foi um ano em cheio e depois do Sporting, Cristiana foi chamada à Seleção Nacional, para representar as sub-15 e a “sensação foi incrível”. A convocatória teve um significado importante e representou “o esforço e dedicação de todos os dias” davam frutos e “consegui concretizar mais um objetivo e continuarei a trabalhar para vestir as cores de Portugal, é um sonho.”

E apesar de um currículo invejável e com tanto para percorrer, a atleta do Sporting, continua a ser uma menina como todas as outras e quando não está a jogar ou na escola gosta de “andar de bicicleta, passear com os amigos, correr e jogar basquetebol” e tem um paixão um pouco diferente das meninas da sua idade, ela gosta do trabalho de campo, gosta de passar tempo na “horta” e na escola “onde estudo existe uma horta e é a minha turma que está responsável por ela” e não, no intervalo não joga à bola “os jogos são levados muito a sérios e tenho medo de me lesionar” então opta por passar o seu tempo na horta da escola. Especial, não?

 Na conjuntura que se vive atualmente, devido ao Covid-19, tem que ficar em casa como todos nós, coisa que é bastante difícil, porque sempre foi de brincar na rua. Contudo, ocupa o seu tempo, com os trabalhos da escola ou então “a jogar às cartas, vejo filmes e costumo jogar PS4 com o meu irmão” e apesar de o futebol ter acabado mais cedo “claro que não posso ficar parada e por isso costumo ir correr e faço exercício com o meu irmão”, mas só isso não chega e “o Sporting manda exercícios para fazer em casa e é como se de um treino se tratasse”.

Cristiana, tem muitas saudades do futebol e “só quero que isto passe para poder voltar o mais rápido possível aos relvados”, já não vive sem eles.

Por falar em relvados, há duas jogadoras que são a sua motivação, dentro e fora deles, a Ana Borges e Jéssica Silva, ambas pela técnica e velocidade, Um dia, gostava também ela de vestir a camisola que hoje Jéssica veste, a do l’Olympique Lyonnais.

Cresceu a ver grandes nomes do futebol feminino, viu e vê a sua evolução todos os dias, mas há um onze que lhe enche as medidas : “a Patrícia Morais; a Nevena Damjanovic; a Sílvia Rebelo; a Matilde Fidalgo; a Joana Marchão ; a Raquel Fernandes; a Darlene Reguera; a Pauleta; a Jéssica Silva; a Megan Rapinoe e a Ana Borges.” Onde a internacional americana, Megan Rapinoe é estrela, visto que para Cristiana ela é a “melhor do mundo.”

E apesar das coisas terem evoluído e serem mais fáceis no seu tempo, que nos tempos de Silvia Rebelo ou Ana Borges, acredita que ainda há muito a fazer e que o preconceito existe sempre, contudo “o caminho faz se caminhando” e o futuro será sorridente.

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