“Duas atletas com o mesmo aquecimento não vão ter as mesmas lesões” por Francisco Couto

Boa tarde Francisco, antes demais queria agradecer a disponibilidade e a partilha. Fazendo uma breve apresentação da sua ligação ao futebol feminino, e apresentando-o a quem ainda não o conhece, o Francisco faz parte do departamento médico do Boavista FC, estando especialmente destacado para o acompanhamento da equipa sénior, a competir na II Divisão Nacional. Já representou o mesmo clube nos escalões jovens e na Liga BPI.

Francisco Couto (Boavista) (Fonte: SportandGirls)

1. Como iniciou a atividade no mundo do futebol, sobretudo no futebol feminino?

FC: Boa tarde, deixem-me, desde já, agradecer a escolha para este tema.
A minha ligação com atividades desportivas vem desde o secundário em que optei pela área de Desporto. Candidatei-me ao FCDEF, entrei e passado uns anos, desisti do curso. Fiquei sempre com essa “pedra no sapato”. Casei, tive filhos e pensei sempre que estes seriam desportistas, o que se veio a confirmar. Inicialmente no futsal, acompanhei a Mariana e o Francisco, depois no Atletismo. Só aí resolvi dedicar-me às terapias desportivas, nomeadamente com a realização de um Curso de Massagem Terapêutica, de Relaxamento e, posteriormente, com um Curso de Massagem Desportiva, Primeiros Socorros, entre outros. Finalmente, os meus filhos quiseram seguir o futebol e daí surgiu a oportunidade de eu exercer os conhecimentos já adquiridos. E foi no futebol feminino que fui convidado, pelos diretores a acompanhar os jogos das Sub 19 do Boavista Futebol Clube (onde jogava a Mariana com 14 anos), pois estas nunca tinham um socorrista, nem nos treinos, nem nos jogos, porque o futebol feminino não tinha orçamento para pagar a alguém para o fazer. O Futebol masculino, também no BFC, para um escalão de Sub 10, onde jogava o Francisco, tinha sempre alguém a acompanhar a equipa. Ou seja, a diferença entre o futebol masculino e feminino era abismal em termos económicos, para uns havia tudo ou quase tudo e para as outras não havia quase nada, o que me chocou bastante e daí não me importar de, na altura e “pro bono”, exercer essas funções.

 

2. Na sua opinião a maioria das lesões com que se depara advém de um aquecimento ineficaz ou são de cariz anatómico?

FC:Esta pergunta é pertinente, e eu tenho uma opinião formada por muitos anos de experiência em algumas modalidades como o andebol, no qual fui 11 anos federado. Embora passasse e passe a vida a ouvir “aqueçam bem que está frio”, “não entres frio no jogo que te lesionas”, etc, eu acho que a natureza anatómica de cada um, a sua genética, é mais influente do que os aquecimentos. Nunca descorando os aquecimentos, no limite, o que vai influenciar a lesão é a genética de cada indivíduo. Tenho atletas que estão sempre no “estaleiro” e algumas que nunca lá passam. Ou seja, duas atletas com o mesmo aquecimento não vão ter as mesmas lesões. Assim como outras duas que não aqueçam devidamente, se vão obrigatoriamente lesionar. No entanto, aconselho sempre um bom e adequado aquecimento a todas as atletas antes de um treino intenso ou, principalmente, de um jogo, em que se “deixa tudo em campo”.

Assistência à atleta Nicole (Boavista, Liga BPI 2018/2019) (Fonte: SportandGirls)

3. As mulheres são fisicamente menos capazes para a prática do futebol?

FC:Politicamente correto diria que não… Mas são. Não têm a “explosão”, a impulsão, a velocidade nem agressividade e virilidade dos homens. No campo técnico e tático, são iguais, são tão boas como os homens. As diferenças da componente física, no entanto, têm vindo a diminuir em relação aos homens, fruto de treinos mais rigorosos que levam ao limite a força física e também da massificação da modalidade, mas acho que não vão conseguir atingir o mesmo patamar do homem por causa das diferenças anatómicas.

 

4. Quais são, do seu ponto de vista, os principais fatores de lesão desportiva?

FC:A par do fator genético, a falta de cuidado com a preparação física que deve ocorrer nos treinos e a fadiga muscular. O mau estado dos campos sintéticos, a falta de rega dos mesmos faz com que o atrito seja muito maior, logo, todas os ossos, músculos e articulações vão sofrer mais impacto e até exceder os seus limites, causando a lesão. Outro fator a considerar é a intensidade com que a modalidade é praticada, a agressividade e disputa de cada lance por vezes com intenção de provocar dano no adversário.

Lance dividido Albergaria vs Boavista (Liga BPI, 2018/2019) (Fonte: SportandGirls)

5. Em termos práticos, qual foi o/os caso/os mais grave/es que teve em mãos?

FC:Uma rotura do ligamento cruzado anterior durante um jogo num relvado com as características acima descritas. Por acaso essa é uma lesão que eu tenho visto com frequência em atletas de futebol feminino e aconteceu recentemente, num caso mais mediático, na atleta do Sporting Carlyn Baldwin. É também uma das lesões que mais tempo deixa uma atleta fora da competição, quase uma época inteira.

 

6. Pergunta matreira…as mulheres são mais picuinhas nos tratamentos do que os homens?

FC:Não. Umas são outras não, assim como os homens, uns são e outros não.

 

7. O que recomendaria a todas as atletas para prevenir o aparecimento de lesões?

FC:Recomendo sempre o fortalecimento muscular e uma consequente maior resistência à fadiga. Um corpo fatigado é mais sujeito a lesões. Sofrer nos treinos, conhecendo os seus limites, para que a competição, que é, ou deve ser o topo do esforço, corra bem. 

Assistência à atleta Adri (Boavista, Liga BPI 2018/2019)

8. Do ponto de vista do desenvolvimento do futebol feminino, sente que hoje em dia se dá mais relevância ao acompanhamento médico em jogo/treino?

FC:A minha experiência no futebol feminino resume-se apenas a quatro anos. No entanto, já deu para perceber que tem aumentado o acompanhamento médico tanto no treino como no jogo. A FPF, aliás, obriga a que esteja presente, no banco de suplentes, um médico, ou um enfermeiro ou um fisioterapeuta em jogos do Campeonato Nacional. Equipas mais profissionais como o Braga, o Sporting ou o Benfica, vieram aumentar a exigência em todos os níveis, inclusive na avaliação por nutricionistas e por médicos de medicina desportiva.

 

 9. Acredito que não tenha uma tarefa fácil e que por vezes as dificuldades sejam muitas…o que destaca como maiores limitações para o correto desenvolvimento do seu trabalho na área?

FC:Sem dúvida alguma, a maior limitação para poder exercer com rigor o meu trabalho, é o tempo que os exames complementares de diagnóstico como Ecografias, TAC’s e Ressonâncias Magnéticas, e respetivos relatórios, demoram a chegar às minhas mãos. Para uma simples ecografia, o tempo de espera pelo SNS pode ser de um mês ou mais. Ora, com prazos tão largos, o paciente pode, entretanto, recuperar totalmente, e, menos frequentemente pode piorar pela especificidade da lesão.

Curativo realizado por Francisco Couto a atleta do Albergaria (Albergaria vs Boavista, Liga BPI 2018/2019)

10. Para terminar gostaria que nos falasse um pouco sobre os objetivos do Boavista FC para a presente temporada?

FC:Ora, como toda a gente sabe, o segredo é a alma do negócio. Falando mais a sério, isso é um tema que diz respeito à Direção do Futebol Feminino, no entanto, posso afiançar que ambição não falta a este clube, que por tradição é um grande formador de jogadoras de topo.

 

Muito obrigada pela sua cooperação Francisco, os votos de toda a equipa do Portal do Futebol Feminino para que esta seja uma época de sucesso.

FC:Obrigado e que o Portal do Futebol Feminino nos continue a Informar com a isenção e qualidade a que já nos habituou.

 

 

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