Edite Fernandes: “Às vezes até falo com as chuteiras”

Ela é do melhor que Portugal tem a jogar futebol. Marca golos, usa a braçadeira de capitã e vai para os EUA

Em passo apressado. É assim que Edite Fernandes anda quando regressa a Portugal e é a esse ritmo que se encontra com o i, em Lisboa, um dia antes de rumar ao Sul, onde hoje começa a Algarve Cup. Desde os 22 anos, a capitã da selecção portuguesa de futebol feminino (31 anos, 90 internacionalizações, 25 golos) salta de país em país a espalhar talento. Depois de China, Noruega e Espanha, chega a vez dos Estados Unidos, a maior potência da modalidade. Dos primeiros toques no batatal da avó, em Vila do Conde, ao convite para jogar no Santa Clarita Blue Heat, da W-League, esta mulher do Norte, benfiquista convicta, conta-nos a sua história.

Pela manhã escreveu no Facebook: “Um bom dia para ser feliz e fazer os outros felizes!” Acorda sempre assim?
Não, não! De manhã tenho um feitio muito especial, mas acordei com essa sensação. Gosto de me sentir bem e estou a passar por uma boa fase da minha vida.

Quando regressa a Lisboa aproveita sempre ao máximo?
Sim, mas tenho pena de não ter muito tempo, nem ir ao Norte visitar a família. Amanhã já tenho de fazer um molde para umas caneleiras. Em Lisboa visito os amigos e combino jantares. Sim, porque gosto muito de comer e beber!

Onde nasceu?
Em Vila do Conde.

O que recorda da infância? O mar, o seu fascínio, esteve sempre perto…
Não vivi logo perto do mar, vivi nos arredores, em Modivas. A minha avó vivia lá e eu cresci com ela. Em frente à casa da minha avó havia relva e um campo de batatas, onde comecei a jogar.

Jogava no campo onde a sua avó semeava as batatas?
Sim, e de vez em quando lá andava ela atrás de mim e dos meus primos porque lhe estragávamos as colheitas. Com oito ou nove anos fui para as Caxinas, junto ao mar. A minha mãe tinha uma empresa de tapeçarias e era em frente à loja que jogava. No Verão, ia para a praia. O fascínio nasceu aí, o mar é uma inspiração. Mesmo no Inverno, a chover torrencialmente, ia jogar na areia. Também jogava muito no recreio da escola e participei no inter-freguesias até chegar a federada, com 17 anos.

Teve pena de não continuar a estudar?
Claro. Isso aconteceu comigo e acontece com os masculinos. Há acompanhamento, mas chega uma altura em que se torna muito difícil conciliar as coisas.

Mas foi boa aluna?
Fui. Os professores diziam que não tinha melhores notas só porque não queria. Estudava o mínimo e tirava as notas mínimas. Era boa aluna a Matemática, adorava Geografia, mas tudo o que fosse estudar muito, marrar, era horrível. Deixei a escola quase com 18 anos e tive um convite para trabalhar na Expo’98. Vim para Lisboa e acabei por ficar.

Antes disso já jogava no Boavista. Foi lá que tudo começou?
Exacto. Os meus tios sabiam que dava uns toques e levaram-me a um treino. Era uma terça-feira e a equipa B só treinava na sexta, mas os meus tios insistiram, treinei e nunca mais saí.

Lembra-se do primeiro treino?
Na terça-feira, foi físico. Na quarta, foi conjunto, as titulares contra o resto. Eu jogava no resto, ficou 4-2 e marquei os golos do resto.

Alguma vez se sentiu maria-rapaz?
Não. Queria lá saber, fazia o que gostava, jogava à bola com rapazes, sentia-me bem, não ligava a preconceitos.

Quando é que foi convocada pela primeira vez para a selecção?
Com 17 anos, no primeiro ano do Boavista. Ainda era novinha, estava por lapidar. Criei duas boas amizades na selecção, a Carla [Couto] e a Adília, e foram as intermediárias da minha ida para o 1.º Dezembro. Arranjei trabalho e ia de comboio para Sintra, muitas vezes chegava a casa à meia-noite e meia.

Depois partiu à aventura para a China.
Sim, foi uma aventura no verdadeiro sentido da palavra, pelo país, pela cultura. Participei num jogo entre estrangeiras e chinesas. Os treinadores chineses escolheram duas estrangeiras para cada equipa da Superliga e fiquei numa das melhores, o Beijing. Fomos à final, ganhámos e fui a melhor jogadora.

Já não tinha dúvidas de que queria ser jogadora de futebol?
Não tinha dúvidas de que queria ser profissional, mas quando voltei tive de arranjar emprego novamente. Trabalhava e jogava no 1.º Dezembro como amadora.

Trabalhou em quê?
Passei pelo McDonald’s, pelos escritórios de uma empresa de serração, trabalhei como auxiliar educativa em escolas, estive no ramo da hotelaria, bares, restaurantes… Fiz muitas coisas.

A ida para Espanha mudou-lhe a vida?
Muito, passei só a jogar futebol.

A transferência para o Atlético de Madrid foi outro pulo de gigante.
Sim. Embora ainda não lute pelo título no futebol feminino, já é um grande clube. O Prainsa Saragoça, onde jogo, também é um grande clube, o Atlético só tem mais nome.

De Espanha salta para a Noruega, uma das melhores ligas do mundo.
Foi outro boom, outra experiência espectacular, é a sexta melhor liga do mundo!

E quando voltou, escolheu outra vez o Saragoça. Porquê?
Souberam que tinha voltado, fizeram uma proposta e eu não consegui recusar. Tenho muito carinho pelo clube e aceitei com a condição de poder sair se aparecesse outra oportunidade.

Foi o que aconteceu com o Santa Clarita Blue Heat, dos Estados Unidos?
Exactamente. Em Espanha, a Superliga acaba em Maio e ainda há Taça até Junho, mas tínhamos o acordo de palavra.

Vai jogar na segunda divisão, mas o nível é elevadíssimo, não é?
A W-League é uma montra para a grande liga, tem jogadoras estrangeiras de qualidade. Na liga profissional só podem estar cinco estrangeiras em cada equipa, a entrada é muito restrita e as equipas têm de pagar para jogar.

Já conhece o clube?
Sei que é uma equipa bastante ambiciosa, que quer ganhar a sua conferência para depois conquistar a liga.

Quando parte?
Vou em Maio para Los Angeles.

Uma das suas cidades preferidas.
Pois é, além de Las Vegas e Nova Iorque.

Tem ídolos?
Em tempos era a americana Mia Hamm, mas a minha preferida é a Hanna Ljungberg, da Suécia, que também é baixinha e muito rápida.

E no futebol masculino?
O meu jogador preferido era o João Vieira Pinto. Mas gosto muito do Raúl, um grande jogador, com boa postura, qualidade técnica, profissionalismo.

Torce por que clube?
Benfica. Sou uma mulher do Norte falsa, mas só em termos clubísticos, a garra é a de uma mulher do Norte.

Se fosse possível, em que equipa da liga portuguesa jogaria?
Cada macaco no seu galho. Há muitas diferenças, é difícil comparar porque fisicamente o homem é muito diferente, embora tecnicamente haja jogadoras ao nível de jogadores da liga.

O que é que gosta mais de fazer?
Já gosto mais de ir ao ginásio, gosto de ler e sou uma viciada na internet.

É religiosa e benze-se sempre quando entra no campo.
Nunca fui de ir à missa, acredito na fé.

É uma forma de se encontrar consigo?
Sim, e de me concentrar. Às vezes até falo com as minhas chuteiras.

Até quando quer jogar?
Enquanto o meu corpo permitir e eu sentir que ainda consigo reagir.

Ser mãe é um projecto?
Sim, mas se quiser jogar até aos 37 ou 38, começa a ser um risco. Este discurso é um pouco egoísta, mas neste momento ponho carreira à frente.

Teremos a primeira escola de futebol para raparigas?
Há algumas coisas em vista…

O que é que se pode fazer mais pelo futebol feminino em Portugal?
Já fico cansada de responder a isso…

Mas nota-se algum desencanto.
Sim, claro. As estruturas, os apoios financeiros são reduzidos. Mas a culpa não é só da federação, os apoios têm de partir das associações.

In http://www.ionline.pt

Sandra Costa

O futebol faz parte da minha vida. Desde cedo que jogo futebol e decidi criar o Portal Futebol Feminino em Portugal porque senti que ninguém conhecia, sabia ou falava de futebol feminino.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *