Fenómeno: Por causa da tentação, eles amarravam as mãos atrás das costas

As Kerr’s foram o primeiro grande fenómeno popular do futebol feminino: juntaram 53 mil pessoas em Goodison Park e deixaram mais 14 mil de fora. Em 1915, com os homens na guerra, jogavam as mulheres.

Pode ter sido, como dizem alguns, o jogo mais estranho do mundo. Homens contra mulheres. Os homens sentiam-se tão superiores que logo ali estabeleceram uma regra: “Jogamos com as mãos atrás das costas”. As mulheres reclamaram, muito sexistamente. A regra manteve-se.A Grande Guerra tomava conta das preocupações coletivas.

Futebol? Isso era uma rapaziada! Uma rapaziada sem rapazes, porque os rapazes tinham sido mandados para as trincheiras das Ardenas e não tinham muito tempo para se dedicar a esse nobre jogo bretão.

E as mulheres? Aí, a coisa tornava-se diferente. Afinal, não eram aposta para o exército a torto e a direito. De alguma forma, sentiam a liberdade de poderem fazer aquilo que os homens podiam fazer mas que a guerra os impedia.

Como jogar futebol, por exemplo.

A prática inicial era de sete contra sete.

Os campos pareciam demasiado longos e demasiado largos.

Com os homens longe de casa, espingarda e baioneta nas mãos e capacetes enterrados até ao pescoço, as damas sentiram-se libertas de um jugo.

Não bastava serem chamadas aos milhares para o tal esforço de guerra que as fazia passar horas e horas e horas nas fábricas de armamento.

Vejamos, por exemplo, o que aconteceu com as funcionárias da Dick-Kerr’s de Preston-North-End. De forma absolutamente espontânea, começaram a disputar jogos de futebol nos terrenos vagos da usina. O jornal Manchester Guardian não deixou escapar a novidade. E gastou linhas bem gastas sobre o estilo das moças da Kerr’s: “They danced around the ball when they reached it as if they were uncertain what to do with it…”

Ligeiramente condescendente? Plenamente de acordo.

Já o Football Mail, sediado em Portsmouth, resolveu fazer uma eleição: “Pioneer’s Ladies captain, Ada Ascombe, is the finest woman playing in the country!” Um elogio e tanto, convenhamos.

1921 O passar do tempo foi criando uma embirração sexista incompreensível. Nettie J. Honeyball, uma rapariga descomplexada que fundou o British Ladies’ Football Club em 1895 tornou-se uma espécie de bicho a abater.

Os jogos entre equipas femininas eram um fenómeno extraordinário na Grande Ilha para lá da Mancha. Se hoje falamos de 20 mil ou 30 mil pessoas em redor dos principais encontros do Mundial de futebol de mulheres que acabou em França na passada semana, não entramos em números extraordinários, não senhor.

Entre 1914 e 1915 foi autorizada em Inglaterra uma liga de futebol feminina. Quem não tem cão caça com gato ou, neste caso, com gatas, terão pensado os lordes que governavam a Football Association. Calcula-se que mais de 70 mil inglesas, operárias nas mais diversas fábricas de material militar, se organizaram em grupos desportivos para praticarem esse sagrado association.

A Dick, Kerr & Co, uma manufatura de material para caminhos-de-ferro, ganhou fama de mais forte equipa do Reino Unido, sobretudo sob a influência de uma senhora chamada Grace Sibbert. O entusiasmo chegou ao ponto de, num encontro contra as grandes rivais da Arundel Culthard, outra fábrica gémea, arrastar para o campo mais de 10 mil pessoas ansiosas por tirarem as medidas exatas em relação às rivais.

No dia de Natal de 1917, as Kerr’s deixaram claríssima a sua superioridade com uma vitória por 4-0.

A popularidade das moças explodiu por completo. Passaram a ser convidadas para jogos amigáveis cujas receitas revertiam para o auxílio de militares a passar momentos de total infelicidade. E isso subiu a sua categoria como representantes de um jogo até então masculino como nenhum outro.

No final da Grande Guerra, a estatística mandava dizer que mais de 150 mulheres jogavam futebol no reino e que as Kerr’s tinham obtido o notável feito de juntar, em Goodison Park, campo do Everton, em Liverpool, o exagero de 53 mil espetadores para verem ao vivo as suas atuações contra as francesas do Rouen, do Roubaix e do Le Havre. Acham um exagero? Pois então fiquem com mais este facto: cerca de 15 mil pessoas ficaram à porta de Goodison, sem bilhete para a festa.

Sexismo é sexismo e ponto final. A guerra chegou ao fim, os rapazes que saíram dela sem mazelas voltaram a estar disponíveis e eis que, no dia 5 de dezembro de 1921, a federação inglesa proibiu o futebol feminino e baniu da sua organização todos os clubes que teimassem em mantê-lo. Na génese da decisão, uma frase absolutamente formidanda: “Football is quite unsuitable for females and ought not to be encouraged. Several doctors agreed that the sport posed a serious physical risk to women”.

Francamente. Pior seria impossível.

O futebol das mulheres entrou em hibernação para ser reativado muitos, muitos anos mais tarde.

E agora, para pôr um ponto final na crónica, recuamos a 1907 e ao tal jogo entre mulheres e homens. Venceram elas por 8-5. Miss Barret foi a goleadora da tarde e assinou um hat-trick. Quem assistiu ao confronto afirmou que os canadianos se deixaram encantar pelas adversárias e, galantemente, entregaram-se à derrota. Outros levantaram uma questão bem mais realista. Com as mãos atrás das costas, mantiveram-se distantes de determinadas situações ligeiramente mais atrevidas. Pois, sexo é sexo.

In https://ionline.sapo.pt

Sandra Costa

O futebol faz parte da minha vida. Desde cedo que jogo futebol e decidi criar o Portal Futebol Feminino em Portugal porque senti que ninguém conhecia, sabia ou falava de futebol feminino.

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