“Há sempre um primeiro golo, que pode fazer a diferença”, Catarina Furtado – Visão

Jéssica Silva. Foto: PAULO ESTEVES
Jéssica Silva. Foto: PAULO ESTEVES

Na sua primeira crónica para o site da VISÃO, Catarina Furtado realça que “promover e defender a participação das raparigas em todas as modalidades desportivas tem, indiscutivelmente, um papel transformador na igualdade, também de género.

Nesta minha primeira crónica para a VISÃO partilho uma história de uma rapariga no desporto. Na verdade, partilho uma parte muito significativa da vida de Jéssica Silva no “dito” mundo masculino do futebol.

A Jéssica foi a primeira bolseira do projecto Bolsas CCC da ONGD Corações com Coroa, CCC (criada por mim, pela Ana Torres e pela Ana Magalhães há três anos). Uma jovem portuguesa, internacional de futebol, para quem a bola e o relvado oferecem a possibilidade de sonhar e concretizar uma mudança que ultrapassa a que acontece dentro do seu próprio mundo.

Depois de longos anos de trabalho duro, em condições muito difíceis, longe de um ninho que se desejaria acolhedor, incentivada pelos vários elogios mas tantas vezes atormentada também pela falta de auto estima, a Jéssica foi finalmente desafiada para jogar num clube estrangeiro, na Suécia, o Linkoping. Imediatamente um tsunami de emoções, impulsionado por muitas opiniões favoráveis e outras tantas desmotivadoras, fizeram a Jéssica tomar uma decisão: ir.

Um novo cenário se abria para esta jovem, na altura com 18 anos, que desde cedo se habituara a viver em função da sua paixão pelo futebol, um refúgio eficaz com vista para um túnel de oportunidades, onde era ela a verdadeira estrela. E desta forma, o desporto, o futebol, o trabalho de equipa e a inseparável treinadora (Paula Pinho) ajudaram a Jéssica a descobrir o seu potencial fora das quatro linhas. E a desbloquear os medos, a acreditar em si quando todos caminhos da sua herança contavam outras histórias, em que o sucesso não tinha espaço.

Jéssica é hoje uma jovem futebolista que devido ao “jogo da bola” se transformou numa menina-mulher mais saudável, mais confiante e ainda detentora de vários troféus. As internacionalizações, os minutos jogados, o profissionalismo, a disciplina contam. Pela seleção A, a Jéssica tem zero cartões vermelhos e foi do seu jogo de pés, da estratégia que adotou, dos passos elegantes, que em Setembro, do alto dos seus poderosos 20 anos, surgiu o golo de Portugal frente à Ucrânia.

Depois da experiência na Suécia, a Jéssica voltou a Portugal e ao seu clube de coração, o Albergaria. Está de regresso aos estudos e irá continuar a crescer e a aprender que o desporto e os jogos de equipa, como por exemplo o futebol e o andebol (a CCC tem outra bolseira nesta modalidade), são espaços de exercício de comportamentos saudáveis mas também de gestão positiva de conflitos, dos seus direitos e uma forma única de participação que não pode, nem deve, tornar-se invisível.

Com a Jéssica e por causa da Jéssica, aprendi que não há futebol feminino mas equipas femininas de futebol, passei a estar mais atenta às discrepâncias nos apoios ao desporto no que diz respeito às questões de género e constatei que na imprensa portuguesa produzem-se noticias sobre esta modalidade mas que não há espaço para comentadoras residentes. Por outro lado, as treinadoras estão ausentes, não oiço referências a prémios de jogo, nem “botas de ouro”. Pontualmente lá é sublinhado o trabalho da treinadora portuguesa que está no Qatar, Helena Costa, e da jogadora da selecção do Brasil, Marta Vieira da Silva (que um dia assistiu a um jogo da nossa Jéssica e afirmou, sem hesitar, que “é um talento inegável” ), mas a verdade é que existe uma quase total invisibilidade dos feitos e dos percursos das jogadoras de futebol.

Quando andava a pensar sobre o que iria escrever nesta estreia, chegaram-me via Facebook as imagens do golo lindo da Jéssica… É nestas alturas que apetecia gritar ao mundo: Parabéns Jéssica! Porque a sensação que tenho é de que são muito poucas as pessoas com acesso a uma informação que nos deveria orgulhar a todos e todas. Porque é que os prémios para as jogadoras de futebol são de um valor infinita e vergonhosamente mais baixo do que para os jogadores? Eu sei a resposta: porque o futebol jogado por homens faz muito dinheiro. Pois, mas é tudo uma questão de mudança de atitudes e de vontade de querer ver uma mudança que tenha como objetivo a igualdade de oportunidades. E as conquistas vão chegando, com o tempo.

No mês em que se assinalou mais um Dia Internacional das Raparigas, a 11 de outubro, quando se preparam campeonatos de futebol, e se coloca nas agendas políticas (nomeadamente na Agenda dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável definida pela ONU até 2030 e na do Ano Europeu para o Desenvolvimento) a importância do potencial das raparigas para o crescimento económico, para o progresso, e se tenta, mais uma vez, não deixar para trás os seus direitos, a Jéssica Silva foi a minha inspiração.

Eu nunca tinha escrito ou falado sobre futebol. Mas esta é também uma temática de Igualdade de Género que o Fundo das Nações Unidas para a População, UNFPA, trabalha. Promover e defender a participação das raparigas em todas as modalidades desportivas tem, indiscutivelmente, um papel transformador na igualdade, também de género.

E há sempre uma primeira vez….

 

In visao.sapo.pt

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