Histórias de uma portuguesa no Irão: «Aqui as pessoas apoiam o futebol feminino»

Catar e Irão estão apenas separados pelo Golfo Pérsico. A distância entre Doha e Teerão, respetivamente capitais do Catar e do Irão, é de cerca de 2100 km. Apesar da proximidade, as diferenças que Helena Costa encontrou ao chegar ao Irão e à cidade próxima do Mar Cáspio, Teerão, onde vive e trabalha, são enormes.

«São duas realidades completamente diferentes, quer em relação ao que encontrei no futebol, quer à cultura. No Catar comecei um projeto do zero, criei seleções nacionais, campeonato nacional, competição escolar e até uma escola de futebol feminino a nível nacional, aqui encontrei uma grande aposta no futebol feminino, ao contrário do que se pensa e até do que esperava».

Seleção Sub-16 feminina do Irão ©Arquivo pessoal da treinadora

Para compreendermos melhor o que nos diz a nossa entrevistada temos que eliminar da nossa mente todas as imagens e ideias pré-concebidas que temos do Irão. «Tinham já desenvolvida uma seleção de Sub-13, Sub-14, que são as primeiras seleções da Confederação Asiática de Futebol em termos de futebol feminino, Sub-16, Sub-19 e até seleção A».

O projeto encabeçado pela Federação Iraniana de Futebol que visa desenvolver o futebol feminino no país tem cerca de cinco anos. Apesar de curto foi um período rico e de grande crescimento, não só no que diz respeito às próprias seleções nacionais mas também em termos de competição interna, que possui três divisões de campeonato nacional, uma Superliga com 12 equipas, uma Segunda Liga com duas séries de dez equipas e uma Terceira Liga com três séries de oito equipas.

«Está totalmente desenvolvido, o país é enorme, e há ainda campeonatos de escalões jovens, Sub-19 e Sub-16, sendo este último feito em consonância com as escolas», explica a selecionadora nacional.

O facto de primeiro a federação do Catar e depois a do Irão terem acreditado na sua competência e qualidades, levam a que lhe perguntemos se tem alguma explicação sobre o facto de a Federação Portuguesa de Futebol, numa altura em que reformulou em larga medida o futebol feminino, não a ter escolhido para assumir algum tipo de função na estrutura.

Sem querer alimentar polémicas nem abrir as portas à especulação, Helena Costa responde de forma sintética: «Porque me haveriam de escolher? Estava e estou a cumprir contrato com outra federação», sublinha, não se alongando mais no tema.

Cultura igualmente diferente

Uma coisa leva à outra: cinco anos de desenvolvimento do futebol aumentam a permeabilidade da sociedade em relação ao futebol feminino e à própria prática da bola pelas mulheres. O cabelo tapado mantém-se, mas as diferenças são gigantes, diz Helena Costa.

«Até para andar na rua, e isso é uma imposição do Governo, tem que se cobrir o cabelo. Eu própria, enquanto estrangeira, e portanto elas, enquanto jogam também têm que o fazer. E não é só o cabelo, é cobrir o pescoço, braços e pernas».

Contudo, se no Catar, um projeto de base, foi até difícil recrutar jogadoras para a seleção nacional, no Irão tudo é mais fácil: «Aqui as pessoas apoiam o futebol feminino. Tenho até mulheres casadas na seleção A, miúdas muito novas também que fui agora convocando…»

A Academia onde Helena Costa trabalha diariamente ©Arquivo pessoal da treinadora

Os exemplos são vários e provam a «aceitação por parte da cultura» de haver mulheres a jogar futebol mas, «sempre separadamente dos homens. No Catar era dificílimo ter mulheres em competições oficiais porque elas não podiam ser fotografadas ou filmadas, as famílias chegaram a pensar que elas não estavam em jogo, quando estavam. Aqui não. A Academia, que é utilizada pela seleção masculina [orientada por Carlos Queiroz], é a mesma usada por todas as seleções femininas, masculinas, de praia ou de futsal, chegando a haver treinos praticamente ao lado uns dos outros».
Outra das coisas que a surpreendeu muito pela positiva prende-se com as estruturas e o nível económico dos clubes no futebol feminino. «No caso específico da Superliga todas as jogadoras têm um salário. O país é enorme e as deslocações são de avião e há suporte financeiro para isso, através de um patrocinador. Esta é uma enorme diferença, até mesmo ao nível de Portugal, que mesmo antes da crise tinha o futebol feminino como um sacrificado».

Histórias de uma portuguesa a viver no Irão

Apesar de estar no Irão há pouco tempo, Helena Costa diz que já se sente em casa, considerando a língua o principal problema da sua adaptação. Morena e de cabelos escuros, a nossa entrevistada chega, aliás, a ser considerada iraniana ou jordana, algo que lhe chegou a acontecer, também, enquanto viveu no Catar.

«Quando eu já sabia dizer e perceber algo de árabe, chego aqui e fala-se o persa e ao contrário do Catar, as pessoas pouco falam inglês, inclusive as jogadoras, e por isso, quando não tenho alguém comigo que saiba traduzir, neste caso a minha manager, tenho que me desenrascar, seja numa ida às compras, a chamar um táxi… Lembro-me perfeitamente de ter conversas de malucos com algumas pessoas», recorda entre sorrisos, explicando situações que, numa cidade como Teerão, desde logo pela sua dimensão, não serão fáceis de viver.
«Caótico em termos de trânsito é. Quase toda a gente tem um carro e são imensos habitantes, é uma confusão». Tanto que, se o Governo considerar que há muita poluição, «decreta dois dias de feriado colados ao fim de semana para que os carros não circulem», algo que já ocorreu à nossa entrevistada por «duas vezes».

Helena Costa sublinha, aliás, que o Irão é muito diferente da ideia generalizada que existe na Europa: «Não é árido, é muito verde, não é um deserto, é muito frio e tem neve. Teerão é uma cidade absolutamente normal, com prédios, com lojas, com centros comerciais, cinemas. Não tem nada a ver com o que a generalidade das pessoas acha. As pessoas são extremamente afáveis, fui muito bem recebida, continuo a ser, aliás», usando, como forma de comprovar isto mesmo, uma história que ocorreu passado pouco tempo de estar em Teerão.

Seleção A feminina do Irão ©Arquivo pessoal da treinadora

«Um vizinho iraniano tocou à campainha e deixou uma caixa com o jantar. Eram 23h00. Explicaram-me entretanto que durante dez dias iam fazer isso porque era uma altura em que havia comemorações religiosas e em que era suposto fazer-se algo de diferente e bom. E o vizinho lá fez o jantar, para mim e todo o prédio, durante esses dias. Depois a minha manager explicou-me que nas ruas havia famílias inteiras a fazer isso a desconhecidos», conta.

Helena Costa ingressou, há alguns meses, na sua segunda aventura no estrangeiro. Depois do Catar, a treinadora portuguesa de 34 anos quer deixar marca no Irão, começando já na próxima semana, frente à Jordânia, naqueles que serão os seus primeiros jogos oficiais enquanto selecionadora da equipa A. O objetivo é qualificar o conjunto principal feminino do Irão para a Taça da Ásia, a maior prova de seleções do continente, e a treinadora acredita.

«Sou selecionadora nacional, coordenadora técnica e ainda coordeno uma estrutura que foi criada que é o departamento de scouting nacional, que era extremamente necessário. Ainda temos a ideia, e já apresentei o projeto, de criar uma escola de futebol feminino, que alimentará a seleção, tal como fiz no Catar, mas aqui são milhares de quilómetros e é muito difícil de implementar. Vamos começar por Teerão», começou por explicar a nossa entrevistada, que está há poucos meses no Irão mas sente-se perfeitamente «adaptada».

A Federação iraniana queria contratar Helena Costa por três anos mas, por princípio, a treinadora prefere fazer contratos anuais, tendo-lhe sido pedida a qualificação da seleção feminina para o Campeonato da Ásia [equivalente ao Europeu].

Esta fase de apuramento, neste caso específico, vai realizar-se em Dhaka, capital do Bangladesh, uma das seleções do grupo, num sistema de todos contra todos ao longo de cindo dias.

O Irão integra o grupo B e o sorteio colocou uma das mais fortes seleções, a Tailândia, no caminho de Helena Costa. Bangladesh e Filipinas completam o agrupamento: «Infelizmente calhou-nos a equipa mais forte que está neste apuramento, o maior tubarão, digamos assim», considera a nossa entrevistada, mostrando-se, no entanto, muito confiante na qualificação.
«Sempre acreditei, mesmo nos jogos mais difíceis, que era possível ganhar. No futebol há difíceis mas não há impossíveis. Se não acreditasse não teria assumido este projeto».

O segundo grande objetivo colocado à técnica prende-se com as seleções jovens do país: «É o apuramento das seleções de Sub-19 e de Sub-16. As Sub-19, na segunda fase, embora não tivessem perdido nenhum jogo, não se conseguiram qualificar, e as Sub-16, felizmente, qualificaram-se para a fase final que decorrerá em setembro na China».

Escritório paredes-meias com Carlos Queiroz

Carlos Queiroz, António Simões e Daniel Gaspar são os vizinhos de escritório de Helena Costa, formando, em conjunto com mais alguns expatriados, uma pequena família num longínquo país.

Diz a nossa entrevistada que «os resultados positivos» do antigo selecionador de Portugal foram determinantes na sua abertura desta porta no comando da seleção feminina de futebol.
«As pessoas estão extremamente contentes, qualificaram-se [seleção masculina] para a Taça Asiática. Mas não acredito que o meu trabalho seja melhor aceite por isso, acredito sim que o trabalho dos treinadores portugueses no Mundo, no Irão, no Catar, em Espanha é cada vez mais reconhecido e o Carlos Queiroz contribui para isso».

Seja como for, Helena Costa sabe que no futebol, em qualquer parte do Mundo, «são os resultados que contam. Se calhar não têm noção mas o futebol feminino aqui tem um impacto tão grande que em cada estágio eu tenho que recusar entrevistas, há imensos jornais diários desportivos e o futebol feminino é muito seguido».

In www.zerozero.pt

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