Inês Andrada: a guarda-redes que se apaixonou pela arbitragem

O JOGO conta-lhe o trajeto da ex-guarda-redes do Futebol Benfica, Inês Andrada que aos 23 anos cumpre a primeira época oficial como juíza

Inês Andrada sempre gostou de futebol. Apesar de ter praticado ténis de competição durante seis anos, as brincadeiras na rua com o irmão mais velho e as chuteiras que a acompanhavam na escola, para dar uns toques na bola durante os intervalos, já apontavam para outros caminhos.

Farta das raquetas e da bola fluorescente, enveredou pelo desporto-rei, mas uma conversa com uma árbitra assistente mudou-lhe o destino. Hoje, pode ver esta jovem de 23 anos nos relvados noutras funções, pois Inês decidiu, de forma abnegada, tirar o curso de arbitragem, a nova paixão. Para trás ficaram os tempos em que teve a baliza como “casa”. “Comecei a jogar aos 14 anos. Treinava com rapazes e como ninguém gostava de ir para a baliza e eu não me importava, um dia comprei umas luvas para não magoar as mãos e depois passei a ter treinos específicos para guarda-redes em Oeiras”, conta a O JOGO.

Convidada para se juntar ao Futebol Benfica, o popular Fofó, Inês lá foi depois de ter ganho um torneio pela Associação de Futebol de Lisboa. Corria a época 2010/11, tinha Inês 15 anos. “Toda a gente tinha o dobro da minha idade”, diz, justificando assim a saída para o 1.º Dezembro. “Fui para a equipa de sub-18 e tive mais minutos. Evoluí lá”, recorda. Com o fim da equipa feminina do conjunto sintrense, Inês voltou ao Fofó e integrou os plantéis que conquistaram o bicampeonato e Taças de Portugal, bem como a Supertaça, isto antes de Sporting e Braga entrarem na I liga.

Expulsa no primeiro jogo

O primeiro jogo como sénior foi marcante por motivos caricatos. “Foi com o Cadima e estava toda contente e também nervosa. Aos 70′ fui expulsa, eu que nunca abro a boca. A árbitra achou que tinha agarrado a bola fora da área num lance de um para um. Eu defendi com o corpo todo fora da área, mas com bola e mãos dentro da mesma, na minha opinião. Nem vi o vermelho e ia a dirigir-me para a baliza quando a Ana Pontes [ex-colega de equipa] me disse que tinha sido expulsa. Foi o único cartão vermelho que vi”, sublinha.

As perguntas à assistente mudaram-lhe o rumo

Cansada de jogar pouco e de apanhar com frio e levar boladas nos treinos das 21h30, começou a matutar na mudança. “Sempre tivemos jogos treino e como éramos três guarda-redes íamos rodando, mas odiava ficar no banco. Num jogo, enquanto estava à espera para jogar, pedi para vestir um colete e ser assistente na linha. Sempre fui muito justa e se os elementos da minha equipa protestavam, fazia o que achava justo.” Até que chegou o dia do contacto com uma juíza que não recorda o nome. “Estava no banco e lembrei-me de perguntar à assistente do meu lado como se fazia para tirar o curso de arbitragem. E ela, de um lado para o outro, respondia-me. Mas a certa altura, pediu para falarmos no fim do jogo”, explica. Com os passos certos em mente, em 2017/18, Inês deixou de competir pelo Fofó.

Dias após o final do curso, em dezembro de 2017, estava a estrear-se num jogo de rapazes entre o Sporting e a Alta de Lisboa. Hoje, a ex-estagiária cumpre a primeira época oficial e conta-nos com indisfarçável satisfação alguns dos momentos que já viveu, como a oportunidade de integrar a equipa de juízes do primeiro jogo da equipa feminina do Benfica no Estádio da Luz. “É sempre espetacular ter jogo num estádio grande com relvado natural. Com mais de 8100 espectadores foi um ambiente fantástico. Fui assistente do lado do público e ao olhar para trás e ver miúdos com as famílias e tambores foi fantástico”, narra.

Bocas de mulheres incomodam

“Felizarda” por já ter apitado diversas vezes com juíza principal, algo pouco comum no seu escalão, Inês afirma que não é alvo de tratamento diferente por ser mulher. Mas as bocas mantêm-se, até das pessoas mais inesperadas. “Ouvir asneiras é-me igual, porque entra por um ouvido e sai pelo outro, mas ouvir ‘vai coser meias’, ‘devias estar na cozinha’ é que… Marcou-me uma senhora nas bancadas que dizia: ‘até nós mulheres vimos isto daqui’. Estas senhoras acham-se inferiores aos homens e queria acreditar que já não vivemos num ambiente assim, em pleno século XXI”, explica, desmultiplicando-se com outros episódios. “Acontece que há pais que nem as regras sabem, gritam para o relvado e os filhos é que dizem aos pais ‘não é nada assim.'”

No curto espaço de tempo como árbitra, Inês já teve de recorrer ao cartão vermelho. “Expulsei por acumulação de amarelos. Disse-lhe para se levantar e que teria de ser e não houve contestação, porque foi um lance óbvio. Tento dialogar ao máximo, mas exibo os cartões que o jogo exigir. Por norma, se mostrar muitos cartões, acho que não fiz o meu trabalho bem feito e deixei descambar as coisas. Se reparar num jogador de cabeça perdida, falo-lhe, ou peço a um colega para o acalmar e a coisa resulta”, assevera.

A um palmo da cara de Inês

Quando não é chefe de equipa de arbitragem, os colegas optam por colocar Inês como assistente do lado da bancada com público, algo que também acontece por iniciativa da própria. Foi assim no Sport Lisboa e Olivais-Belenenses. Com as claques por perto, houve um nome que se destacou… “Todos foram educados e sabiam o meu nome. O meu nome foi o mais chamado das bancadas. ‘Inês isto e aquilo’. Se alguém atirava uma boca sexista, alguém ripostava e dizia para parar”, refere, com uma nota engraçada sobre os jogadores do Belenenses. “Eles refilam muito mais independentemente de ser uma mulher ou não. Alguns adotam outro tipo de atitude, mais de estrela e um jogador do Belenenses até ficou a um palmo de distância da minha cara e disse-lhe que não falava assim comigo”, aponta, dando conta da tomada de consciência e pedido de desculpa quase imediato.

Habituada a ouvir alguns piropos do público, até hoje ainda nenhum jogador ousou fazer semelhante figura, mas depois das partidas, Inês é bombardeada com pedidos de amizade nas redes sociais. “Os meus colegas homens gozam comigo, porque com eles isso não acontece. É sempre um momento em que nos rimos da situação”, atira, divertida.

E um das vantagens de ter jogado futebol é “perceber perfeitamente as manhas” dos atletas. “Sei o que dizem no balneário e se estão dizer verdade em campo.”

Madrugar aos fins de semana

Antes da arbitragem, Inês e a corrida não casavam. Por esta razão, a jovem árbitra, que já correu nove quilómetros num jogo, recorde pessoal, destaca a evolução sentida. “Como guarda-redes não corria muito e odiava correr, mas precisava de correr para passar nas provas físicas. Inscrevi-me num ginásio e na altura fazer 5 minutos de passadeira era um sacrifício”, diz Inês, que hoje corre durante 45, “sem problemas”. “Houve uma evolução muito positiva do corpo em poucos meses. E ainda hei-de correr mais”, afiança Inês que duas vezes por semana tem treinos específicos de arbitragem.

E como quem corre por gosto não cansa, esta licenciada em Gestão, que trabalha na área de trade marketing na Nestlé, acorda mais cedo aos fins de semana, do que em dia de trabalho na empresa. À espera de Inês estão 4/5 jogos por fim de semana, que apita com paixão.

Inês não se arrepende da decisão de abandonar a competição. “Tenho o feeling de que chegarei mais longe na arbitragem do que chegaria se continuasse como jogadora”, vinca, tendo o exemplo de Sandra Bastos, a primeira árbitra portuguesa a marcar presença num Mundial. “É fantástico e abre portas para todas nós. A Sandra apitou muitos jogos meus e ambicionamos chegar ao patamar dela”, perspetiva a árbitra, que assegura não simpatizar com nenhum clube. “Temos uma folha enquanto árbitros que se destina a colocarmos os clubes que não queremos apitar, além do clube pessoal e a minha está em branco”, confessa Inês que já sacou do cartão branco, destinado aos atos de fair-play para os mais novos. “Do nada, um guarda-redes começou chorar, porque lhe doía o dedo e o rapaz adversário a meio metro da linha de baliza reparou nisso e não marcou golo”, conta. Inocente, o menino perguntou-lhe o que significa o cartão e se podia continuar em jogo. A resposta afirmativa deixou-o alegre e sorridente, depois do momento de preocupação em relação ao rival de circunstância.

In https://www.ojogo.pt

Sandra Costa

O futebol faz parte da minha vida. Desde cedo que jogo futebol e decidi criar o Portal Futebol Feminino em Portugal porque senti que ninguém conhecia, sabia ou falava de futebol feminino.

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