Jill Ellis, a melhor treinadora do mundo está, oficialmente, desempregada

NAOMI BAKER – FIFA

Jill Ellis abandonou a seleção feminina dos EUA depois de sobreviver a uma tentativa de golpe de equipa, lidar com jogadoras a entrarem com um processo de tribunal contra a própria federação e de ser a primeira a vencer dois Mundiais seguidos

Imagine que pestaneja, ouve um estalar de dedos, abre os olhos e, de repente, está no corpo e na mente de Jill Ellis, algures em 2017.

Tem rugas na cara séria, que pouco se descompõe. Está nos seus 50, já ganhou um Mundial e prepara-se para jogar outro com muitas das mesmas jogadoras que, dois anos antes, minaram a indiscutível melhor seleção do planeta de futebol feminino com uma espécie de golpe contra si. Protestaram, críticas da falta de comunicação fora do campo, desgostosas com a relação de ‘olá e adeus’ com que não explica decisões táticas e individuais.

Críticas das suas escolhas e da falta de comunicação para explicá-las, preocupadas com as exibições e algumas derrotas invulgares, queixam-se ao presidente da federação. É um ultimato disfarçado, pretendem mudanças, querem tirá-la do cargo, como tiraram o antecessor, Tom Sermanni, e empurraram Greg Ryan and April Heinrichs antes dele.

Meses depois, está sentada numa sala com essas jogadoras revoltadas, e com o presidente que em tudo manda, diante de todas, a garantir que não há golpe, dali não sai e continuará como seleccionadora dos EUA, onde as futebolistas não são iguais às dos outros países – na maior parte das comparações, à cabeça, são sempre melhores.

Portanto, o que acha que conseguiria fazer depois? Vencer outro Campeonato do Mundo, provavelmente, não lhe passaria pela cabeça.

Abrimos e fechamos os olhos e, noutro pestanejar, vimos a real Jill Ellis, já livre de experimentalismos na equipa, a escolher as (melhores) jogadoras para as suas posições, sem ostracizar as mais velhas (Alex Morgan, Megan Rapinoe, Tobin Heath, Julie Ertz), a conquistar o segundo Mundial seguido com as americanas.

STACY REVERE

Antes de a inglesa nascida em Portsmouth, emigrada aos 16 anos para os EUA e macambúzia no estilo com que fala e parece reagir a tudo o que a vida lhe atira, elas não eram as melhores desde 1999.

Ellis chegou, ganhou, avisou que ia apertar a corda que tende a relaxar quando se vence quase por regra, pôs-se a inventar experiências, chegou a perder três jogos em casa no mesmo ano, foi apertada pelo golpe de equipa e, a partir daí, as americanas apenas seriam derrotadas uma vez em mais de 40 jogos.

A outrora contestada aguentou-se, fez por fortalecer a relação com e entre as jogadoras, elas elogiaram-na no que antes a criticavam e cá para fora vieram mensagens de nunca ter havido uma seleção tão unida. Acabou com a quase instituída regra de as jogadoras mais jovens terem de esperar anos, no banco, até terem oportunidades, começou a testar as novatas, a arriscar. Tudo em plena ‘guerra’ entre a federação americana e as jogadoras, unidas num processo em tribunal por discriminação de género.

A equipa impôs-se, em modo bullying, durante a fase de grupos, sofreu apenas três golos na competição e seguiu até renovar o domínio mundial com 26 golos marcados (um recorde), mas sem rasgos de brilhantismo coletivos, a confiar na supremacia física, técnica e mental que cada jogadora parecia ter em campo.

Jill Ellis foi eleita a treinadora do ano pela FIFA e disse adeus, esta segunda-feira, na última das partidas da Victory Tour que a seleção andou a fazer, dentro de portas, para festejar a conquista do Mundial à frente dos americanos (tour que incluiu duas vitórias sobre Portugal, por 4-0 e 3-0). “Foi o trabalho mais difícil que tive na vida. Saio com o depósito cheio de memórias”, disse, na despedida. Sai com 106 vitórias em 132 jogos com os EUA.

Agora, com dois Campeonatos do Mundo em série, ainda com as melhores jogadoras por onde há que escolher, imaginem a tarefa que espera a quem lhe venha a suceder.

In https://tribunaexpresso.pt/

Sandra Costa

O futebol faz parte da minha vida. Desde cedo que jogo futebol e decidi criar o Portal Futebol Feminino em Portugal porque senti que ninguém conhecia, sabia ou falava de futebol feminino.

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