Laura Georges: “O futebol tem este poder de fazer as pessoas felizes”

Antiga internacional francesa, atual secretária-geral e vice-presidente da Federação Francesa de Futebol (FFF), Laura Georges era um dos rostos mais esperados da Soccerex Europe, onde esteve para falar do crescimento do futebol feminino. Ao SAPO 24, falou da capacidade que o futebol tem “de fazer as pessoas felizes, de mudar as coisas, de consciencializar as pessoas”. Não gosta de comparações com o futebol masculino, quer ver a vertente feminina crescer sozinha, na sua própria economia. Invoca Didier Drogba e fala de Lilian Thuram, o seu ídolo, recusando, no entanto, qualquer faceta de ativista e afirmando que o racismo não tem o mesmo impacto no futebol feminino que tem no futebol masculino. Porquê? Por causa do público, diz.
Por Tomás Albino Gomes
Laura Georges:
Gualter Fatia/Getty Images

Há uma entrevista em que conta que quando saía das aulas ficava na rua a jogar até tarde e que, nessa altura, o seu sonho era um dia jogar um Mundial. Acha que hoje, mais do que nunca, há cada vez mais raparigas a jogar à bola na rua e a partilhar o mesmo sonho?

Claro que sim, especialmente quando se organiza um Campeonato do Mundo em França, não é? As raparigas querem poder estar lá, ser jogadoras e estar no Mundial. Tenho a certeza. Hoje, não há limite para elas. No meu tempo não havia muitos jogos a passar na televisão e jogos de futebol feminino não havia nenhum. A pouco e pouco é que começaram a ser transmitidos os jogos da seleção francesa, depois dos clubes e agora estamos nas redes sociais. As raparigas de hoje têm sempre forma de nos seguir.

Então, se não via muito futebol na televisão, como é que começou a jogar?

O meu pai costumava jogar comigo e um dia, no recreio da escola, uma rapariga viu-me a brincar com uma bola e disse: “devias vir jogar para o Paris Saint-Germain”. E eu pensei que, como gostava de futebol, talvez devesse ir. Um ano depois decidi tentar entrar para o PSG, não pelo nome, mas porque era o clube mais próximo de minha casa, vivia a 15 minutos de Saint-Germain.

Não, comecei no PSG, mas fui estudar para o instituto e jogar no CNFE Clairefontaine [centro nacional francês de formação em futebol]. Depois recebi uma bolsa para ir estudar para o Boston College, nos Estados Unidos, e depois o Olympique Lyon disse-me “queremos a ganhar a Liga dos Campeões. Estamos a construir uma equipa para isso”. Voltei e fui para o Lyon.

Leitor, peço-lhe dois segundos de pausa nesta entrevista para recuperar uma informação que vale a pena. É que, minutos antes de falar com o SAPO24, Laura Georges estava no palco principal da Soccerex Europe a falar sobre crescimento do futebol feminino e uma das coisas que sublinhou, dos tempos em que era atleta é que, no futebol, o que faz a diferença é o líder.

E, segundo nos contou nesta entrevista, Jean-Michel Aulas, presidente do Lyon no dia em que ocorreu o telefonema em que a convidou para o clube, era esse líder. “Alguém lhe disse que gostava que ele investisse numa equipa feminina e ele investiu”, sem rodeios. Construiu uma equipa para ganhar sem nunca a deixar na sombra da equipa masculina. Aliás, a antiga internacional francesa diz que as condições para a equipa feminina eram bastante boas e que havia sempre muita interação com a equipa masculina. E sentia, sobretudo, a proximidade do presidente. Há um episódio que guarda com especial carinho, quando recebeu uma chamada de Aula, depois de se ter lesionado num jogo pela seleção, em que o dirigente do Lyon lhe disse que, assim que voltasse, iam ajudá-la a ficar bem porque a equipa precisava dela para o jogo da meia-final da Liga dos Campeões que se avizinhava.

Desculpe a interrupção, mas  as entrevistas também se fazem destas notas à margem. Voltemos.


É importante ter essas pessoas no futebol feminino, dispostas a investir, certo?

É importante ter bons líderes e uma verdadeira vontade de contribuir para o jogo. Mas para os outros que não sabem se o devem ou não fazer, digo-lhes para não terem medo, dêem uma oportunidade. Há pessoas que têm medo de investir, dizem “oh mulheres, não sei como lidar com isto”. É estar envolvido em relações humanas e muitas vezes é apenas ter vontade.

Nova interrupção em benefício da história que estamos a contar, a história de Laura Georges e também do futebol jogado por mulheres. Para além de ter sido internacional francesa – vestiu 188 vezes a camisola da seleção -, de ter jogado pelo Lyon, Paris Saint-Germain e Bayern Munique, já depois de ter assumido a posição de secretária-geral e de vice-presidente da FFF, Laura foi embaixadora do Mundial deste ano que se realizou em França. Esteve na organização e promoveu-o.

No painel dizia que estar nas bancadas e no relvado são posições muito diferentes. Lá em baixo, a preocupação é se o relvado está bom para ser jogado. Lá em cima é como é que se vai encher um estádio.

Porque é que o Mundial deste ano foi um ponto de viragem no futebol feminino?

Porque trouxe a atenção de todo o mundo. A organização… não consigo dizer o quão boa foi a organização deste Mundial, tivemos muita humildade, as pessoas que trabalharam connosco, os voluntários que trabalharam connosco foram incríveis. Ao mesmo tempo, a seleção dos Estados Unidos levou a competição para o panorama mundial, com tudo o que aconteceu e até com a posição em relação ao presidente, e mostrou ao mundo que as mulheres são lutadoras, líderes e que se pode ter bom nível de futebol se dermos o melhor na organização.

Uma das coisas que marcou este Campeonato do Mundo foi a posição da seleção norte-americana em relação à Federação de Futebol dos Estados Unidos devido às diferenças de pagamentos e prémios de jogo para homens e mulheres. Em França existe uma distinção entre os pagamentos e os prémios à equipa feminina e masculina?

Cá, as mulheres são pagas com base nos contributos dos clubes, não dependem diretamente do dinheiro da Federação. O valor varia conforme o resultados dos jogos, se vencem, se perdem… Os homens igual, recebem uma percentagem do dinheiro que trazem [para a FFF] e as mulheres recebem a mesma percentagem do dinheiro que entra. É assim que dividimos.

Ou seja, a percentagem é a mesma, mas a quantidade é diferente.

É diferente porque os homens trazem o que trazem e as mulheres trazem o que trazem, mas é a mesma percentagem do que estão a trazer para a Federação.

Mesmo não falando de números, imagino que exista uma grande diferença de valores. A Federação Francesa de Futebol está, de alguma maneira, a trabalhar para encurtar a distância de valores?

A ideia não é diminuir o intervalo entre homens e mulheres, é continuar a desenvolver o futebol feminino. Este ano, pela primeira vez, assinámos com uma grande marca para patrocinar a liga feminina que se passa a chamar Arkema Division 1. Isso traz-nos uma certa quantidade de dinheiro por ano para cada clube. Portanto sim, estamos a ter a certeza de que apoiamos o jogo através de patrocinadores, dando as melhores condições possíveis às jogadoras da seleção nacional, apoiando o futebol amador e os clubes femininos. É assim que queremos continuar a desenvolver o futebol.

Quão distantes estamos de ver uma jogadora como Marta ou Megan Rapinoe receber a mesma quantidade de dinheiro que Cristiano Ronaldo ou Lionel Messi?

É uma economia e nós temos de nos lembrar como é a economia do futebol, os valores das transferências, quantas camisolas são vendidas, por quanto são vendidos os direitos de transmissão… neste momento, nenhuma jogadora vende tantas camisolas ao ponto de o clube ganhar dinheiro com isso, temos poucas transferências e o mercado de venda de direitos televisivos está a começar a ser discutido. O dinheiro que alimenta o futebol feminino vem da vontade dos presidentes dos clubes. Neste momento, não acho que estejamos perto de alcançar os números dos homens, mas o objetivo não é ser igual a eles, é criar uma economia que possibilite o crescimento do jogo.

Esta nota pode parecer descontextualizada, mas, em duas perguntas, vai perceber a razão: a alcunha de Laura em campo era “Le Roc”, “A Pedra”, em português.

E uma das questões que mais curiosidade me despertava, antes desta entrevista, era  perceber o impacto direto que o futebol feminino tem na sociedade, onde se revela, onde se inspira, o que consegue de diferente neste mundo que não se quer comparar ao dos homens mas sim crescer sozinho.

Vê-se como um exemplo para as raparigas mais novas?

Não sei, mas gosto de apoiar raparigas que queiram fazer mais e melhor. Parte do meu trabalho passa muito por conversar e apoiar e eu sei que muitas me ouvem.

Acha que há alguma rapariga no recreio da escola a dizer “je suis Le Roc”?

[risos] Não sei, eu gostava que sim, mas não é o objetivo. Apenas encorajá-las.

Li que o seu ídolo era Lilian Thuram. Que faceta admira mais, a do jogador ou do ativista?

O que mais gostava nele é que era uma boa pessoa. Lembro-me quando estava em concentração com a equipa nacional, ele entrava sempre para dizer olá a toda a gente, não esperava que as jogadoras lhe dissessem olá primeiro, era sempre o primeiro cumprimentar-nos. Foi assim que nos tornamos amigos, tornamo-nos mesmo amigos. Durante o tempo em que ele ainda jogava, ligava-me para saber como estava, se estava tudo a correr bem. Lembro-me de uma vez ele me ligar para dizer que me ia ver ao estádio e apareceu no jogo das meias-finais do Mundial na Alemanha. Ia a alguns dos meus jogos com os filhos. Hoje continuamos a ver-nos, adoramos falar de futebol, é um ótimo conselheiro e um grande amigo.

Também se vê como uma ativista fora de campo?

Vejo-me apenas como uma pessoa que gosta de partilhar a sua experiência.

Não como Thuram faz?

Thuram fala de tudo e ele sabe que quer apoiar as crianças no desenvolvimento delas, ajudá-las a ser quem querem ser, reunir as pessoas, independentemente da cor da pele. Eu, gosto de fazer passar a mensagem sobre aquilo que sei.

Há racismo no futebol feminino?

Há alguns casos de racismo, mas não tão impactantes como muitas vezes acontece no futebol masculino. O público é diferente, é mais familiar. Se vir os vídeos do Mundial, há tantas crianças no estádio, pais, temos mais pessoas abertas à diferença.

E porque é que o público é diferente?

Porque as pessoas sentem que o jogo não é agressivo, sabem que as jogadoras são lutadoras e gostam da paixão delas. Gostam do que é em campo.

Estava-me agora a lembrar do documentário “Le Bleus”. Conhece?

Sim, sobre as vitórias da seleção masculina em 1998 e 2000 e o impacto nas pessoas. Oui.

O documentário mostra muito a influência que o futebol pode ter na sociedade. Acha que o desenvolvimento do futebol feminino pode ajudar a melhorar a sociedade para melhor?

Sim, acho mesmo. Dou sempre o exemplo de Didier Drogba, quando depois do jogo em que a Costa do Marfim consegue a primeira presença num Campeonato do Mundo, ele pega no microfone e, em direto para a televisão nacional, disse ‘precisamos de parar esta guerra’. Na altura, a Costa do Marfim estava em guerra civil, e ele falou com as pessoas, disse que temos de conseguir viver todos juntos. E, pouco tempo depois disto, a guerra acabou. O futebol tem este poder de fazer as pessoas felizes, de mudar as coisas, de consciencializar as pessoas.

In  https://24.sapo.pt/

Sandra Costa

O futebol faz parte da minha vida. Desde cedo que jogo futebol e decidi criar o Portal Futebol Feminino em Portugal porque senti que ninguém conhecia, sabia ou falava de futebol feminino.

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