Lesões no futebol feminino

Acompanhando os jogos da seleção feminina pelo Torneio Internacional Cidade de São Paulo, minha preocupação com o tema “lesões” aumentou consideravelmente. Perdemos Cristiane num lance infeliz. Grazi e Renata Costa sofreram lesões graves no joelho e fatalmente perderão a chance de disputar o Mundial da Alemanha.

Cito três atletas lesionadas a serviço da seleção brasileira que coincidentemente fazem parte do plantel santista, que convenhamos, teve um ano bem agitado. Já discorri sobre o calendário tacanho de 2010 para o futebol feminino e não me utilizarei apenas deste argumento para justificar as lesões ocorridas nos últimos jogos. Até porque, o problema é bem mais complexo.

Por conta desta minha preocupação, voltei ao Centro de Medicina Esportiva do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospítal das Clínicas, centro certificado como Centro de Excelência FIFA, ainda não utilizado pela CBF para avaliação e recuperação das nossas atletas, segundo informou o Dr. Paulo Roberto Santos – Silva.

Em busca de uma explicação científica acerca do assunto, conversei por algum tempo com o Dr. Paulo, fisiologista do CME e que avaliou as meninas da seleção para o Mundial dos EUA em 1.999, que me apresentou diversos aspectos da composição de um atleta de alto rendimento, que vai da alimentação, até problemas cardíacos. A partir desta semana, vou tratar de todos os aspectos que envolvem a preparação da atleta do futebol feminino.

Pesquisas mostram que para ser um bom esportista, além de ter talento, estar apto e em constante treinamento, os hábitos alimentares também são importantes; deles resultarão um corpo que sofrerá menos durante as partidas, aumentando assim a possibilidade de melhorar o desempenho esportivo. “Jogar  futebol desencadeia uma série de reações no organismo humano. Por exemplo, com as células brancas do sangue, observa-se que, devido ao esforço físico aumentado, as do tipo neutrófilos (receptores)  aumentam em número, enquanto os linfócitos, células de defesa diminuem. Além disso, com a consequente falta de linfócitos facilitando as infecções”, Diz Dr. Paulo.

Nota-se também que a lesão muscular sem alimentação adequada pode acontecer a qualquer momento, pois observa-se alterações nas fibras do músculo, nos eletrólitos que fazem a transmissão elétrica para o músculo contrair e fazer trabalho, e numa série de hormônios que são mensageiros quimicos e responsáveis por controlar diversas funções dentro do corpo.

As jogadoras adequadamente alimentadas são mais eficazes na contração muscular, têm menor risco de inflamação e maior capacidade do organismo de lutar contra a toxicidade dos radicais livres (elementos degenerativos dentro do organismo), lembrando que a punição é maior em jogos competitivos do que em jogos amistosos ou coletivos onde a intensidade das partidas não é tão alta. “Também sempre no segundo tempo da partida, o corpo sofre maior dano celular, ruptura de glóbulos vermelhos, cansaço e desidratação (desgaste), portanto, a fim de se apresentar bem e realizar deslocamentos intensos, é essencial alimentar o corpo adequadamente”, completa o fisiologista.

Nem uma atleta pode esquecer que elas precisam menos proteína e grodura e mais carboidratos e fibras, pois  a maior porcentagem de energia consumida, devido ao esforço físico é compensada pelos carboidratos e não pela gordura. Infelizmente as equipes femininas não comem  corretamente. Para começar, elas não consomem carboidrato suficiente. Além disso, a sua hidratação é insuficiente e isso causa um aumento no batimento cardíaco e cansaço. As porcentagens de eletrólitos também são inadequados, pois ingerem muito pouco potássio (tem bastante nas frutas) e exageram no sódio e cloreto (que é ruim para pressão arterial). Por exemplo o potássio é fundamental para garantir o equilíbrio eletrolítico, essencial para a transmissão correta dos neurônios que enviam impulsos para o músculo trabalhar. Muitas dessas jogadoras tem deficiências de ácido fólico,  vitamina D, cálcio e flúor (fortalecimento dos ossos), iodo (para o metabolismo em geral do corpo e formação de hormônios) e magnésio (tem mais de 300 funções no corpo) que age em diversas funções que afetam a função do músculo. Frente a todas essas informações, procurar o melhor desempenho através de mudanças de hábitos alimentares é condição imperiosa para essas meninas. Medidas eficazes podem ser tomadas pela nutrição para melhorar o desempenho desportivo. O Dr. Paulo, faz uma série de propostas para este fim, por exemplo, o número de células vermelhas do sangue aumenta com uma maior ingestão de proteínas, ácido fólico e vitamina C. Para neutralizar a inflamação causada pela atividade física, ele aponta para as vitaminas, carotenóides e certas substâncias de origem vegetal. Na luta contra a oxidação, por outro lado, ele menciona carboidratos, fibras e vitaminas. Quanto à diminuição dos danos celulares, ele propõe, entre outras coisas, a ingestão de fibras e carotenos. Com estes e outros exemplos, o fisiologista  tentou demonstrar que, através do desenvolvimento de novas estratégias alimentares, alterações corporais causadas pela atividade desportiva podem ser diminuidas, aumentando assim a performance das atletas.

É sabido que por falta de uma formação ideal das atletas de futebol, que geralmente chegam aos clubes através de peneiras e em idade “avançada” para o início da prática de esportes de alto rendimento (com 16, 17 anos, a atleta deve estar entrando no auge de sua performance e não iniciando um trabalho), o aspecto nutricional geralmente é falho. Quantos clubes disponibilizam aparato adequado para suas atletas? Quantas não vivem em alojamentos perto do clube sem um acompanhamento nutricional diário e adequado?

É imperativo que façamos um amplo estudo das condições das nossas atletas, questionarmos sobre os métodos utilizados na preparação física das mesmas, de modo que não vivenciemos com certa assiduidade, a quantidade de lesões que foram apresentadas nas últimas semanas. Ou alguém acha normal que atletas acostumadas a um clima tropical, terminem um torneio arrebentadas frente a meninas que vivem num país cujo clima é bem distinto do nosso? Pensemos seriamente a respeito.

In http://www.livresportes.com.br/

Sandra Costa

O futebol faz parte da minha vida. Desde cedo que jogo futebol e decidi criar o Portal Futebol Feminino em Portugal porque senti que ninguém conhecia, sabia ou falava de futebol feminino.

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