Manifestações contrárias à ética desportiva: fenómeno de doping no desporto

No artigo desta semana vamos falar sobre o doping no desporto que é um fenómeno cada vez mais frequente.

“Todos nós, sem excepção, queremos estar nas melhores condições para enfrentarmos as nossas tarefas mais complicadas. O homem de negócios bebe um uísque para se sentir mais descontraído antes de uma reunião decisiva; o médico fuma um cigarro, para acalmar, perante uma operação difícil; o camionista toma cafés fortes para se manter alerta durante a sua viagem que parece interminável. Queremos estar mais atentos, mais enérgicos, mais resistentes à fadiga. Queremos que o sangue irrigue melhor os órgãos e os músculos de que dependemos, que lhes conduza mais oxigénio, que os deixe, para utilizar uma expressão bem desportiva, em plena forma”.

O doping é hoje, mais do que nunca, um tema muito investigado e comentado. Apesar de atual, esta problemática não é recente, tendo-se estendido pelas últimas décadas. Por estar já, de certa forma, “sedimentado” há a ideia de que existe uma definição universal de doping, o que não é verdade.

A noção de doping varia de acordo com as várias instituições e até mesmo com os diferentes Estados e, por esse motivo, se torna tão difícil o seu combate. O facto de ainda não se ter conseguido chegar a um consenso e de não estar ainda consagrada uma definição única de doping, bem como uma lista uniforme das substâncias e métodos proibidos tem prejudicado a luta contra o mesmo.

Em Portugal há uma clara aproximação ao Código Mundial Antidopagem como se pode ver pela Lei n.º 38/2012, de 28 de Agosto, nomeadamente nos seus artigos 1.º e 3.º. Lê-se no artigo 1.º que “a presente lei aprova a lei antidopagem no desporto, adotando na ordem jurídica interna as regras estabelecidas no Código Mundial Antidopagem”. Já no artigo 3.º vemos elencados um conjunto de comportamentos que, a serem levados a cabo, violam as normas antidopagem, tal como acontece com os artigos 2.1 a 2.10 do Código Mundial Antidopagem.

O combate ao doping é hoje uma bandeira de praticamente todos os Estados e/ou organizações desportivas. Ninguém questiona a necessidade e urgência de se lutar contra este flagelo. No entanto, quando o assunto é o motivo dessa luta as opiniões dividem-se.

Uma das razões que é frequentemente mencionada prende-se com a protecção da saúde, isto porque se entende que o doping prejudica quer a saúde do próprio atleta quer a saúde pública.

Os efeitos do doping na saúde remetem-nos automaticamente para um outro fundamento apontado por diversos autores: o facto de o desporto estar tão em voga e, por isso, dos desportistas serem considerados exemplos a seguir. Portanto, o doping tem um efeito negativo na saúde das pessoas em geral e, em particular, das crianças e jovens que admiram os desportistas e os consideram como ídolos, como heróis, imitando tudo, de bom e de mau, que eles fazem.

No caso, se os praticantes desportivos optam por uma prática desportiva honesta, leal e independente de substâncias e métodos dopantes, as pessoas tendem a abster-se dessas condutas. Se, pelo contrário, os praticantes desportivos recorrem com frequência à dopagem então aos olhos da sociedade esta será uma conduta idónea para alcançar bons resultados.

É inquestionável a influência que os praticantes desportivos têm nos mais jovens, sendo referências no desporto obviamente que as suas condutas serão reproduzidas. No entanto, se atentarmos noutras áreas vemos que existem muitas personalidades, igualmente admiradas, e às quais é permitida a utilização das mesmas substâncias dopantes.

Assim sendo, não deveriam também as substâncias consideradas dopantes serem proibidas noutras áreas sociais? Se o objetivo é evitar que estes comportamentos sejam reproduzidos, então a resposta terá que ser, necessariamente, afirmativa. Pelo exposto, se percebe que este argumento de combate ao doping não é convincente.

Uma outra razão muitas vezes apontada é o facto de a dopagem provocar uma vantagem injusta e colocar, por isso, em causa a igualdade de armas. Efetivamente, os atletas dopados encontram-se em situação de vantagem perante os outros, tendo, assim, uma maior probabilidade de obterem melhores resultados, de serem os mais rápidos, os mais eficazes, os mais fortes, de chegarem mais alto e mais longe. Ainda assim este argumento não pode prosseguir. Senão vejamos. Existem muitas situações que colocam alguns atletas em posição de superioridade e que não são postas em causa. Por exemplo, os atletas que vivem em grande altitude terão mais resistência quando comparados com os que vivem ao nível do mar.

Portanto, o doping configura uma vantagem injusta que põe em causa a igualdade de oportunidades mas este não é o fundamento primordial no seu combate.

O doping é, neste momento, um dos maiores problemas no seio do desporto abrangendo todas, ou praticamente todas, as modalidades, sem distinção quanto ao sexo ou idade daqueles que a ele recorrem. Temos, por um lado “aqueles que teimam em ser super-homens pela superação de si próprios e (por outros) aqueles que preferem sê-lo da maneira mais fácil”, e a maneira mais fácil é recorrendo ao doping, recorrendo a substâncias e métodos que os façam chegar “cada vez mais alto, cada vez mais longe, cada vez mais depressa, com cada vez mais força”.

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