“Nunca pensei desistir do futebol”, Matilde Fidalgo, C Futebol Benfica

Capitã do Futebol Benfica em entrevista.

Aos 21 anos, sagrou-se campeã nacional pelo Futebol Benfica, ajudando o clube a alcançar um objectivo há muito desejado. O futebol é uma paixão que existe desde sempre e Matilde Fidalgo nunca ponderou deixar a modalidade.

Quando começou o gosto pelo futebol?
Desde miúda que jogo futebol com os meus dois irmãos, mas não me recordo da idade com que comecei a jogar.

E pensou desde logo em levar o futebol a sério?
Sim. Houve um período em que deixou de ser uma prioridade e hoje tento conciliar o futebol com outra profissão. Quem sabe, um dia, poderei ser profissional mas nunca perdendo a possibili­dade de ser profissional na área que estou a estudar.

Contou sempre com o apoio da sua família?
Sim. Os meus pais e os meus irmãos são os meus maiores fãs. Comecei a jogar no colégio e era muito bem tratada na equipa. Todas as pessoas à minha volta sempre me deram muito apoio.

Como é ser mulher num “desporto de homens”?
É difícil. Algumas pessoas olham para nós como umas ‘totós’ que pensam que jogam mas na verdade não jogam nada. Muitas ve­zes são pessoas que não nos conhecem que dizem isso, porque temos características físicas diferentes dos homens e outro tipo de jogo. No fundo, é desafiador. As mulheres tiveram de ir entran­do no mundo dos homens e o futebol é mais uma dessas áreas.

Aos 21 anos já é capitã de equipa. A idade pesa na hora de envergar a braçadeira?
Não. Sempre fui responsável e encaro o futebol com profissio­nalismo dentro do amadorismo que temos. Faço parte da equipa há muito tempo, fui capitã nos sub-19 e os treinadores talvez te­nham pensado que isso poderia ser uma mais-valia para o clube.

Como capitã, que mensagem envia às colegas?
Não sou muito de falar antes dos jogos, a não ser quando sin­to que há necessidade. Raramente sou eu que falo, porque isso é mais a função do treinador. A capitã deve dar o exemplo. Dou tudo nos treinos, sou pontual, respeitadora e cumpridora. As pes­soas vêem-me nesses aspectos como um exemplo.

O que sentiu ao sagrar-se campeã no clube que sempre representou e logo como capitã?
Senti-me feliz e concretizada. Era um objectivo que tínhamos tra­çado já no ano passado e acabámos por perder tudo perto do fim do campeonato. Um grupo que tem capacidade para superar isso e as adversidades que enfrentou este ano, como lesões e poucas jogadoras disponíveis para os jogos, deixou-me muito orgulhosa.

Como prevê a participação do Futebol Benfica na Liga dos Campeões?
Nunca fui a uma Liga dos Campeões. Tenho noção que tem equi­pas muito fortes, outras mais ao nosso nível e outras com um nível mais baixo. Acredito que vai depender do sorteio, mas va­mos trabalhar para conseguir o apuramento para a fase seguinte.

Acredita que a conquista do bicampeonato na pró­xima época será uma realidade?
Espero bem que sim, mas não quero fazer uma previsão a tão longo prazo. Vai depender muito da equipa que consigamos reu­nir, acredito que a participação na Liga dos Campeões vá tra­zer mais jogadoras porque quererão participar na competição. O nosso plantel não deverá sofrer muitas alterações e por isso acredito que é possível. Há outras equipas fortes, o campeonato será mais competitivo e isso é bom para a modalidade.

O que falta ao futebol feminino português para dar o salto?
Falta um bocadinho de apoio e de sensibilização das pessoas. In­felizmente, não tem muitos apoios nem visibilidade.

Acredita que algum dia haverá um campeonato profissional de futebol feminino em Portugal?
Penso que sim. Já há mais apoio das jogadoras, há jogadoras que vão para clubes com garantia de emprego e casa. É um processo lento, mas de certa forma já está em desenvolvimento e acredito que daqui a uns anos seja possível as jogadoras serem profissio­nais em Portugal.

Se houvesse mulheres a liderar o futebol, tudo seria mais pacífico?
Não [risos]. As mulheres não são, de todo, pacíficas. Pelo con­trário, as mulheres questionam mais. Penso que o futebol não mudaria muito se as mulheres estivessem nos cargos mais im­portantes da modalidade.

O que faz além do futebol?
Estou a estudar engenharia do ambiente na Fa­culdade de Ciências de Lisboa e estou a terminar o terceiro ano da licenciatura.

Consegue conciliar as actividades?
Consigo conciliar perfeitamente. Estou habituada desde sempre a conciliar o futebol com a escola.

Alguma vez pensou desistir?
Não. Nunca pensei desistir. Estive parada durante dois anos depois de jogar com os rapazes, porque estive fora do país, mas nunca desisti da modali­dade e nunca ponderei fazê-lo.

Quais foram o melhor e o pior momen­to da sua carreira?
Os melhores momentos da minha carreira foram a conquista deste campeonato e o apuramento para a fase final do Europeu de sub-19. O pior foi o jogo do ano passado contra o Ouriense, que nos retirou a possibilidade de sermos campeãs.

Quem é o seu ídolo?
A minha mãe. Mas em termos de jogadores, o Messi, o Iniesta e o Cristiano Ronaldo. Na minha posição gosto muito do Fábio Coentrão e do Maxi Pereira. No futebol feminino, a Carla Couto é uma jogadora que tem muito peso e, depois de ter abandonado o futebol, continua a representar muito bem a modalidade.

Qual é o seu maior sonho?
Não sou muito de sonhos, sou mais de metas. Neste momento quero continuar no Futebol Benfica, conseguir o apuramento para a Liga dos Campeões, conciliar o futebol com os estudos e, quem sabe, um dia vir a ser profissional.

Como tem visto a actuação do Sindica­to dos Jogadores?
Tem sido um apoio e tem tentado estabelecer uma igualdade entre o futebol masculino e o feminino. É importante que as jogadoras sintam que estão apoiadas se precisarem de alguma coi­sa e o Sindicato está a fazer um bom trabalho.

Perfil

Nome: Matilde Mota Veiga Santiago Fidalgo
Data de nascimento: 15 de Maio de 1994
Posição: Defesa direito
Clubes que representou: Futebol Benfica.

In sjpf.pt

AnaSilva

Adepta do desporto em geral, mas apaixonada pela modalidade REI (Futebol). Passei a fazer parte deste projecto Portal Futebol Feminino em Portugal com a intenção de poder ajudar na divulgação e promoção do Futebol Feminino.

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