O casamento de Rosa com o Futebol

Guarda-redes Rosa Cruz do Gil Vicente mantém-se no ativo aos 56 anos.

Aos 56 anos, Rosa ainda calça as luvas com a mesma vontade de sempre. Apaixonou-se pelo futebol e é esse amor que a mantém associada à modalidade ao fim de 28 anos de carreira.

Há muito que sente que é inscrita na liga para fazer número. A idade e a vontade andaram sempre de mãos dadas mesmo quando começou a perceber que já não era uma mais-valia para o futebol.

Começou quando tinha 27 anos e já leva 28 de bola. Depois de passar pelo Cabreiros, Nogueirense, Esposende e Santa Maria, chegou a vez do Casa Povo de Martim, em 2000. Não foi uma venda milionária até porque no futebol feminino nada se faz por milhões, tudo se faz por “tostões”.

Chegou para reforçar o ataque. A idade obrigou-a a recuar no terreno. Por ser menos cansativo, assumiu a baliza do Martim, depois de toda uma carreira como número 9. A primeira vez que calçou as luvas foi lá atrás, na década de 80. Enquanto esteve no “auge”, nunca deu entrevistas. Agora é diferente. Os media batem-lhe à porta, graças ao reconhecimento que a modalidade tem tido.

Os tempos que se vivem agora são em tudo diferentes. Na altura em que começou, teve de fazer muitos sacrifícios, pois quando se mete numa coisa “gosta de a levar até ao fim”. Fugia de casa para jogar à bola às escondidas da família. “O que eu queria era jogar futebol e o clube que estivesse mais perto de casa era onde eu queria jogar. Comecei no CP Martim com 37 anos, na altura em que devia de acabar a carreira”, relembra.

Chegou ao Martim pela mão de Amadeu, homem “que ainda hoje faz muito pelo CP Martim e pelo futebol feminino”. Conta que o até então desconhecido andava na rua a perguntar onde é que vivia a Rosa, ao que ela respondeu: “Sou eu. Amanhã apareço no treino”.

“Quem me dera ter menos cinco anitos que ainda dava para jogar outra vez até aos 55 e reviver tudo isso”

Em tantos anos de carreira orgulha-se por ter falhado, no máximo, uma dúzia de treinos e fica triste quando vê que existem jogadoras que à primeira adversidade desistem do futebol. Brinca quando diz que, “normalmente, as pessoas casam-se umas com as outras”, mas que Rosa preferiu jurar amor eterno ao futebol.

No matrimónio, assim como no futebol, passou por momentos bons e outros complicados, mas nunca pensou em desistir. Entre os momentos menos agradáveis está uma final da Taça da Associação de Futebol de Braga contra o Várzea em que perdeu. Inesquecível foi o simples empate frente ao Pico de Regalados, em Martim.

“Estávamos a ganhar 2-0. Chovia que Deus a dava. Elas fazem o 2-1, logo depois o 2-2. Sofri um frango pelo meio das pernas. Não dormi toda a noite”, relembra. Quem diria que com quase trinta anos de carreira, dois minutos no jogo SC Braga – CP Martim, na Taça de Portugal 2016/2017, seriam os melhores momentos da sua vida: “Foi tão bom. Foram dois minutos no Estádio 1º de maio, mas parecia que nunca mais passavam. Quem me dera ter menos cinco anitos que ainda dava para jogar outra vez até aos 55 e reviver tudo isso”.

Em 2018, o CP Martim escreve uma nova página na história do futebol feminino nacional. A formação sénior passará a vestir as cores do Gil Vicente, uma parceria que “vem ajudar”, mas que parece apagar tudo o que foi construído pelo clube de Martim, concelho de Barcelos.

“Esta mudança tem de ser feita porque nós não temos dinheiro. A CP Martim não tem onde ir buscar tostão. Isto ao final de cada época fica muito caro, não é brincadeira nenhuma. Surgiu a possibilidade de fazer este protocolo e por muito que nos custe é muito bom”, explica.

De CP Martim a Gil Vicente
O plantel que compete na Segunda Divisão disputa os jogos no Complexo Desportivo de Martim. Com o emblema do Gil Vicente na camisola a visibilidade também aumentou. Esta época, nos primeiros treinos realizados contabilizavam-se dez atletas. Aquando do anúncio do protocolo entre os dois clubes “apareceram muitas mais, cerca de 30 meninas”. O que mudou, “foi para melhor até agora”.

Tudo isto também permite a Rosa sonhar com a Liga BPI: “Esta época queremos a subida”, aponta. A paixão de Rosa pelo futebol e pelo CP Martim em nada foi alterada. Dentro das quatro linhas, no banco ou na bancada, a guarda-redes está lá para o que eles precisarem: “Se me quiserem como jogadora, diretora ou até mesmo como presidente, pois também já fui presidente, estou aqui. Às vezes existem algumas divergências, mas é natural. Sabemos que casa que não é reinada não é governada”.

Sempre fez “trabalho de homem” e orgulha-se disso. Todas as manhãs começa cedo na oficina de camiões, onde lava viaturas. Nem sempre é fácil conciliar o trabalho com o futebol, mas havendo organização “tudo se arranja”. “Saio do trabalho, vou para casa cozinhar para os meus pais, que já têm 89 anos, e à horinha estou pronta para o treino. O que eu quero é não estar doente. Às vezes chego ao treino cansada, meu Deus do céu, mas quando começo esqueço tudo. O futebol é uma prioridade”, revela.

Partilhou a infância com mais cinco irmãos, todos homens. Carrega um desgosto enorme por nenhum deles ter jeito para a bola. Sabem dar “uns ‘chutitos’, pronto”. Um deles até foi federado, mas com uma carreira sem grande expressão. Se houver um domingo em que não tenha jogo, não há problema. Havendo uma partida de futebol perto de casa, seja o Pico de Regalados ou o Vilaverdense, Rosa marca presença. O que faz nos tempos livres? “Vejo futebol, claro”.

Perfil
Nome completo: Rosa Maria Lopes da Cruz
Data de nascimento: 
10 de outubro de 1962
Posição: Guarda-redes
Percurso como jogadora: Cabreiros, Nogueirense, Esposende, Santa Maria, Casa Povo de Martim e Gil Vicente.

Fotos: Anabela Brito Mendes.

In http://sjogadores.pt

Sandra Costa

O futebol faz parte da minha vida. Desde cedo que jogo futebol e decidi criar o Portal Futebol Feminino em Portugal porque senti que ninguém conhecia, sabia ou falava de futebol feminino.

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