“O futebol sempre foi o meu desporto de eleição”, Matilde Fidalgo

Matilde Fidalgo em entrevista: “O futebol sempre foi o meu desporto de eleição”

Matilde Fidalgo brilha nos relvados portugueses com a camisola do Sporting e é uma das estrelas da seleção portuguesa de futebol feminino. A defesa fez parte da seleção sub-19 que disputou o primeiro Europeu de sempre por Portugal e também esteve no primeiro Europeu da seleção principal, um momento histórico e que viveu com grande alegria. Em entrevista ao Mundo Português, a internacional portuguesa fala sobre o futebol feminino, a evolução que tem vivido e sobre a sua carreira. A terminar o mestrado em Engenharia de Energia e do Ambiente, não descarta jogar no estrangeiro mas para já quer continuar a vencer de leão ao peito…

Como é que o futebol entra na sua vida. Começou cedo?
Sim, comecei a jogar em casa com os irmãos. Sempre vivi com os meus irmãos rapazes e a verdade é que nunca tive aquelas brincadeiras típicas das meninas. Jogava em casa, partíamos coisas (riso)… para grande desgosto da minha mãe!
Quando andava na primária jogava com amigos e depois comecei a fazer parte da equipa do Colégio São João de Brito onde estudava. Eu era a única rapariga no meio de muitos rapazes.
Com 11 anos federei-me e joguei três anos assim. Isto até ser permitido. Hoje acho que está diferente mas na altura quando se chegava aos 13 anos deixava de haver equipas mistas.
Na altura também coincidiu com uma ida com a minha família para o Brasil e só voltei a jogar quando regressei a Portugal.

Quando regressou já foi para um clube?
Fui falar com o treinador do Colégio São João de Brito, para onde regressei também, e disse que tinha que jogar futebol. Foi o treinador Quim que me levou ao Futebol Benfica e foi assim que tudo começou mais a sério.
Eu sempre gostei de desporto. Fiz natação, equitação, ténis… Ainda hoje se não estiver a treinar, quando pára a temporada por exemplo, gosto de ir andar de bicileta ou correr. Mas o futebol sempre foi o meu desporto de eleição!

: “O futebol sempre foi o meu desporto de eleição”

Até que chegou à seleção…
Eu cheguei à seleção em 2010. Fui chamada para o inter-associações, que é uma forma que a Federação tem para observar jogadoras novas de todo o país, já que participam equipas de Lisboa, Porto ou Aveiro, entre outras. Fui vista e depois acabei por ser chamada a um estágio da seleção.

O que é que se sente quando se é chamado à seleção?
É incrível. Eu recebi um telefonema do meu treinador – na altura era o Edgar do Futebol Benfica – que me disse que tinha sido convocada para a seleção. Lembro-me tão bem… Estava a ir para uma aula de inglês e quando desliguei comecei aos saltos no meio da rua. As pessoas devem ter achado que não estava bem (risos). Liguei logo para a minha mãe que ficou comovida.
A verdade é que uma pessoa ser convocada para algo é o reconhecimento de um talento, de um esforço, de um trabalho. Para a seleção é o nosso país. É representar o nosso país da maneira que sabemos melhor e, no meu caso, é a jogar futebol, que é o que eu gosto de fazer.

O apoio da família é importante…
A minha mãe a primeira vez que me viu jogar na seleção chorou. Ainda por cima foi no Jamor que é um estádio emblemático. Não estava praticamente ninguém na bancada e assim que começa o hino vejo a minha mãe a baixar a cabeça e a chorar. É comovente e é um apoio muito importante!

Disse que na sua estreia pela seleção havia pouco público na bancada. Hoje o futebol feminino já tem outro reconhecimento mediático. Como é que tem visto essa mudança?
Ainda no outro dia falava com o meu irmão sobre isso. Comentou-se que que se calhar se eu tivesse nascido uns anos mais tarde iria aproveitar o auge do futebol feminino. É verdade… mas também tenho o prazer de participar na transição. Houve tantas pessoas que fizeram tanto pelo futebol feminino e não colheram os frutos desse esforço. O chegar ao Europeu de futebol ou ter o reconhecimento das pessoas… Eu não sou uma pessoa conhecida mas ás vezes passo e as pessoas comentam “esta é a da seleção”.
Também dentro do mundo do futebol as pessoas acompanham mais, os estádios têm muito mais pessoas a assistir. Eu lembro-me que os primeiros jogos que fiz pela seleção não tinham ninguém. É incrível fazer parte desta transformação do futebol feminino em Portugal. É algo que até achei que não ia acontecer…

Vocês sentem que é uma luta de várias gerações? Que jogadoras como a Carla Couto ou a Edite Fernandes, entre outras, lutaram muito pelo futebol feminino?
Sim sim. Foram várias gerações de jogadoras que cavaram muito… Durante anos batalharam pelo direito de ir para os estágios mais cedo, por outro estatuto para conseguir estar mais tempo juntas em estágio. Para se ter rotinas que é muito importante numa seleção. Foram jogadoras que conseguiram coisas muito importantes para hoje. Quando nos apurámos para o Europeu viu-se a felicidade dessas pessoas… porque foram muitos anos a tentar. Foi muito bonito! Um feito histórico! Há cinco anos nunca diria que o futebol feminino ia estar como está agora. Até era bastante céptica. Achava que ia crescer qualquer coisa mas agora olho para trás e vejo o quanto é incrível.

Equipas como o Sporting, o Braga e agora o Benfica são importantes?
Sobretudo a nível de público. A entrada do Sporting e do Sporting de Braga foram muito importantes. E foram porque se propuseram a profissionalizar jogadoras. E isso fez regressar algumas jogadoras. Porque a verdade é que aquilo que acontece no futebol masculino também acontece no feminino com a diferença dos valores: no masculino conseguem levar a família e no feminino as pessoas vão sozinhas. E vão por amor ao futebol e por querer evoluir. Querem competir nos melhores campeonatos. Hoje é diferente. Estes clubes conseguem oferecer muito melhores condições de trabalho, financeiras até, e isso permite que as jogadoras regressam e e estejam em casa, no seu país.

O que também é bom para o futebol português…
Sim, sem dúvida. Acho que o campeonato ainda não é equilibrado a nível da competitividade. Entraram duas equipas com mais capacidade para ir buscar quem quisessem o que desequilibrou. Por isso, a entrada de outros clubes com mais capacidade vai ser bom para distribuir mais.
Mas já houve uma grande evolução. Sobretudo a nível de projecção. Há muitos mais espetadores. A final da Taça teve mais de 10 mil espetadores, por exemplo.

É um mudar de mentalidade também…
É. Os miúdos hoje crescem a ver futebol feminino. O futebol masculino e feminino são diferentes porque homens e mulheres são diferentes. O jogo é pensado e trabalhado de forma diferente. As gerações mais jovens estão a crescer sem preconceitos e isso nota-se. Os miúdos apoiam e também gostam de ir ver os nossos jogos.

Já sentiu a tentação de ir jogar no estrangeiro…
Já pensei algumas vezes. É algo que não descarto. Estou a terminar a minha tese e depois quem sabe.

Quando joga fora têm contato com portugueses que vivem fora?
Os emigrantes são muito fervorosos. É uma oportunidade de estar ao pé de algo que lhes lembra o país. E para nós também é importante sentir o seu apoio. Sem dúvida.
Normalmente quando jogamos fora temos alguém com uma bandeira, um cartaz. É um amor incrível! Eu vivi no Brasil e era nova mas também senti saudade. Fomos por opção e eu lá vibrava quando via alguma coisa relacionada com Portugal.

Admira alguém no futebol feminio que tenha sido uma inspiração?
Não sou muito de ter ídolos, mas no futebol feminino conheci uma pessoa que hoje até tenho o prazer de ser amiga:a Carla Couto, que para mim foi a melhor jogadora portuguesa.
É o exemplo de uma jogadora que batalhou muito pelo futebol feminino, ainda jogou no estrangeiro, mas podia ter tido mais projeção na carreira porque foi noutra época do futebol feminino. Tinha um talento fora de série. É um exemplo!
Hoje, no ativo, temos a Cláudia Neto que está no Wolfsburg que é uma jogadora fantástica.

E para esta época? Os objetivos passam por vencer de novo o campeonato e a Taça…
O objetivo do Sporting será continuar na senda das vitórias. A nível nacional não perdemos e é essa continuidade que queremos. Este ano tivemos dois empates e de resto tudo vitórias. Vamos tentar vencer tudo o que disputarmos e continuar a ter só vitórias.

Ana Rita Almeida

In https://www.mundoportugues.pt

Sandra Costa

O futebol faz parte da minha vida. Desde cedo que jogo futebol e decidi criar o Portal Futebol Feminino em Portugal porque senti que ninguém conhecia, sabia ou falava de futebol feminino.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *