Os fabulosos irmãos Costa que jogam no Marítimo

Ela sonha jogar num estádio cheio, sentir a emoção e o calor dos adeptos a torcer pela equipa; ele quer ser um exemplo, dar o melhor todas as semanas e ainda não sabe se deve tirar o curso de treinador. Érica Costa e Edgar Costa são irmãos, futebolistas, jogam na mesma posição e no mesmo clube, o Marítimo. O gosto pela bola começou nas “Malvinas”, o bairro social onde cresceram, onde começaram a jogar num campo inclinado que tinha uma rotunda ao meio e onde aprenderam a não ter medo, contam à Tribuna Expresso

MARTA CAIRES (TEXTO) E GREGÓRIO CUNHA (FOTOS)

Érica Costa e Edgar Costa, ambos jogadores de futebol do Marítimo, GREGÓRIO CUNHA

 

É Érica quem começa a conversa. Está nervosa, mas Edgar, o irmão mais velho, capitão da equipa A do Marítimo, ajuda sempre que se atrapalha – a irmã tem que se ir “habituando às entrevistas”, explica, a sorrir. “O futebol está connosco desde miúdos”. Aos 23 anos, Érica é uma das jogadoras mais importantes da equipa de futebol feminino do clube e, na época de estreia na I Divisão, tem já nove golos marcados. O resultado é provisório, “é só por enquanto”, insiste o irmão.

Edgar segue a carreira da irmã com o interesse de um pai. “Sou quase um pai, já que os meus pais estão emigrados em Inglaterra”. O pai, que é pedreiro e andava com dificuldades em arranjar trabalho, saiu para lá há três anos. A mãe e três dos seis irmãos foram com ele para o Reino Unido, e Edgar ficou com duas irmãs. A Érica, que é extremo esquerdo na equipa de futebol feminino, e a Rita, que trabalha no Marítimo e joga voleibol. “O nosso pai gostava muito de futebol, sempre nos incentivou a praticar desporto”, explica Érica.

A prática começou lá, nas “Malvinas”, o bairro social de Câmara de Lobos, onde cresceram.

“Antes era diferente, não havia telemóveis, depois da escola era na rua a jogar à bola. Bastava um assobio para chamar toda a gente”. O agora capitão de equipa do Marítimo, extremo direito, lembra essas tardes, que só acabavam quando a mãe chamava por eles. “Nessa altura havia lá um campo inclinado, com uma rotunda no meio, era lá que se jogava. Era uma baliza em cima, uma baliza em baixo e a gente jogava assim, a descer e a subir. Quando esse campo estava ocupado, íamos mesmo para a rua, para uma garagem que tinha uma porta de ferro, treinar cruzamentos e remates de cabeça”.

A bola era dos vizinhos, às vezes deles, quase sempre velha e gasta. “Era tão velha que se viam os fios”, continua Érica, que também se lembra dos chinelos que usava e dos jogos que inventavam para jogar à bola. “Havia os jogo dos banquinhos, com quatro balizas, que se jogava de dois a dois e só se podia dar um toque na bola e rematar”. E havia outro, mas com duas balizas, que era dois contra dois, dois toques e remate. “A gente inventava sempre qualquer coisa para jogar à bola”, diz Edgar, com um brilho nos olhos.

Por jogar à bola, Érica ouvia, às vezes, uns comentários sobre ser “maria rapaz”, mas, nas “Malvinas” – o nome pelo qual é conhecido o bairro da Palmeira – esse era o menor dos problemas. Inaugurado no início dos anos 80 para acolher as famílias numerosas dos pescadores de Câmara de Lobos, o bairro tem problemas. “As pessoas que são de fora, que não conhecem o bairro, ficam chocadas, mas nós lidamos com isso, estamos habituados”. Edgar explica melhor: “No bairro ficamos adultos mais depressa”.

GREGÓRIO CUNHA

O ambiente não é o mesmo dos tempos em que jogavam à bola na rua, muitos amigos emigraram e outros “seguiram por outros caminhos”. Os dois lamentam isso, os que se perderam para a droga, mas insistem “falamos com todos, todos falam connosco”. Edgar volta a explicar como é: “Cada um faz da sua vida o quer. É verdade que o futebol me orientou a vida, mas acho que não tomava os caminhos que muitos tomaram. Os nossos pais não iam deixar. A gente conhece, viu e vê de perto. É o que eu digo, aquilo obriga a crescer mais rápido, crescer num bairro obriga a ser adulto mais rápido”.

Ficam tristes, mas estão habituados e para chegar onde estão tiveram de perder cedo o medo. É mais uma vez Edgar quem diz como é a regra, lá no bairro: “Não podemos ter medo de nada, ali há pessoas drogadas, há ladrões. Se a gente tem medo é pior, temos que ter as nossas ideias, dizer que é assim e não se desviar disso. Quando percebem que não temos medo começam a respeitar. Ganha-se o respeito assim, não se pode ceder. Quando nos pedem um euro não podemos dar, senão todos os dias temos de dar um euro. Não pode ser assim”. O jogador garante que nunca cede. “Eu costumo ir à vila de Câmara de Lobos tomar café e estão lá muitos do bairro a pedir dinheiro. E eles já sabem que a mim não vale a pena pedir. Digo-lhes: se quiseres comer, uma sandes ou um bolo, eu pago, um euro não dou, já sei que é para droga e isso vai-te matar”.

A vida não foi fácil. “Não foi, nem é, mas, olhe, é a vida”, e talvez por isso não deixam fugir as oportunidades. “No nosso caso, não há segundas oportunidades. À primeira é para agarrar. E neste desporto ainda mais, ainda pior é. Se a gente não agarra à primeira o comboio vai passando sempre, por isso é a melhor agarrar logo na primeira”, mas Érica e Edgar estão em fases diferentes da carreira. O capitão do Marítimo tem 31 anos e começa a pensar no que será a vida depois do futebol.

“Eu estou aqui com um dilema sobre se devo ou não tirar o curso de treinador. Por um lado quero tirar um curso de treinador, mas no momento seguinte penso que ser treinador é uma função ingrata. Eu sei como funciona o futebol”. Também sabe que quer continuar a sentir o cheiro da relva, quer continuar ligado ao desporto e a experiência de capitão pode ser que ajude se decidir fazer mesmo o curso. Por enquanto, ainda está no activo e continua a ter sonhos como futebolista. “Tento dar o exemplo, esse é o meu sonho. Ser um exemplo de trabalho, de dar o meu melhor”.

Edgar não hesita quando diz que o melhor momento que teve foi quando começou a jogar pelo Marítimo. “Mudei muito, a minha personalidade mudou muito, mudei a minha maneira de pensar. Mudei muito para melhor”, mas o extremo direito do Marítimo tem consciência que a irmã terá pela frente mais possibilidades do que aquelas que teve, a começar pela hipótese de ser convocada para jogar pela seleção A. “As minhas hipóteses de de ir à seleção são remotas, são quase nenhumas”. Já no futebol feminino está tudo a começar, quem se destaca é chamado.

Érica espera que sim, que seja mesmo assim, e tem esperança que, com a subida do Benfica à I divisão na próxima época, o futebol feminino se torne mais competitivo, seja mais falado, que chame mais adeptos para ver os jogos. É que, para Érica, não há estádios cheios: nem sequer sabe o que é isso, sentir as pernas a tremer por estar a entrar na Luz ou no Dragão. “Eu gostava de saber o que isso é, o que é sentir os adeptos todos a puxar por nós, a dar força”. É que já não se estranha que as raparigas joguem futebol, já não há preconceito, nem os comentários de que são todas marias rapazes, mas ainda não há o mesmo tratamento que é dado ao futebol masculino.

“Gostava muito de um dia jogar aqui, no estádio dos Barreiros. Jogar aqui seria uma coisa única, se isso acontecer será um dia para não esquecer”. Érica olha pela janela, depois acrescenta que é um estádio bonito, mas, para ela, o relvado do estádio do Marítimo é só para esta entrevista e para as fotografias ao lado do irmão. Talvez as coisas mudem, o futebol feminino é a terceira modalidade do clube mais seguida nas redes sociais, a seguir ao futebol masculino e ao futsal. “Eu acredito que um dia vou jogar aqui”. Um dia, pois por enquanto o estádio está reservado apenas para a equipa A.

No futebol feminino está tudo acontecer e Érica tem só 23 anos, os sonhos estão todos ligados ao futebol, a continuar a jogar. Ainda assim, não esquece que, seja como for, as carreiras na bola são curtas e por isso anda fazer melhoria das notas de 12º ano a ver se entra na universidade, para um curso de Desporto. “Quero continuar ligada ao desporto, mas não para ser treinadora, isso não é para mim”. Este gosto pelo futebol é mesmo de família, “não dá para deixar” e Edgar volta a entrar na conversa para dizer que ouviu contar histórias de antigos jogadores que ficam malucos quando deixam de jogar.

E os irmãos não querem largar aquilo que está com eles desde miúdos. Desde que eram os miúdos das Malvinas que jogavam à bola num campo inclinado que tinha uma rotunda ao meio. O futebol é o que têm e mudou-lhes as vidas. “Não vamos ser hipócritas. Temos um rendimento que não é normal, que é acima do normal, e isso claro que ajuda. Ajuda para nós e para a família, sempre dá para ajudar um pouco a família. E somos oito, seis irmãos, pai e mãe. Na verdade somos nove, tenho de contar com o meu filho de seis anos”, diz Edgar, antes de ir calçar as botas para o treino da equipa principal do Marítimo.

In https://tribunaexpresso.pt/

Sandra Costa

O futebol faz parte da minha vida. Desde cedo que jogo futebol e decidi criar o Portal Futebol Feminino em Portugal porque senti que ninguém conhecia, sabia ou falava de futebol feminino.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *