“Quero que as pessoas saibam quem é a Jéssica Silva, não só porque fez uma ‘cueca’ ou duas”

Jéssica Silva não esconde a felicidade por chegar ao Lyon, “o melhor clube do mundo”, e acredita que mais portuguesas podem seguir o seu exemplo. O sonho é impor a sua qualidade e ser considerada uma das melhores, independentemente da coletânea de fintas dignas de vídeos do YouTube.

Por Inês Braga Sampaio

Jéssica Silva entre duas jogadoras da Suécia. Foto: Ludvig Thunman/Reuters

Jéssica Silva quer ser conhecida pelo que faz em jogos inteiros e não por vídeos de 30 segundos no YouTube. A portuguesa, que este verão rumou ao Lyon, assume a ambição de conquistar um lugar no tetracampeão europeu e entrar na lista das melhores jogadoras do mundo.

A internacional portuguesa chegou ao topo do futebol mundial, em termos de clubes, mas não lhe basta isso. Em entrevista a Bola Branca, Jéssica Silva, cujas fintas – incluindo os “túneis” – são presença habitual nas redes sociais, sublinha que, embora este primeiro ano em França seja de adaptação, não tem medo de lutar por um lugar. E, num futuro próximo ou mais distante, entrar na lista de nomeadas à Bola de Ouro.

“O primeiro ano é sempre de adaptação, mas isso não esconde a minha ambição de querer ter a minha oportunidade e conseguir aproveitá-la. Eu sei que, neste momento, estou numa equipa em que elas fazem todas parte da lista das melhores jogadoras do mundo. Eu quero também fazer parte da lista. Quero que as pessoas saibam quem é a Jéssica Silva, não só porque fez uma ‘cueca’ ou duas, ou três ou quatro. Quero mostrar as capacidades que tenho como jogadora”, afirma a extremo do Lyon.

Jéssica chegou ao topo, mas quer subir mais ainda

Jéssica Silva não esconde a “alegria imensa” e o “orgulho tremendo” que sente por ser jogadora do vencedor das últimas quatro edições da Liga dos Campeões feminina. “É uma sensação que não dá para escrever muito bem. Estou a viver aquilo com que sempre sonhei”, reconhece.

A avançada acredita que a sua transferência para um clube tão importante “é um bocado o reconhecimento do trabalho que está a ser feito, quer a nível de clubes, quer a nível da Federação”, para desenvolver o futebol feminino em Portugal. Jéssica espera ver mais compatriotas a seguir o seu exemplo e a rumar a clubes de topo.

“Portugal está a caminhar a passos largos para mostrar que, realmente, temos algo a dizer. As jogadoras portuguesas são ambiciosas e acho que devemos ser ainda mais. Tenho a certeza que existirão mais portuguesas em grandes clubes, como já existem, assim como no Lyon, que, modéstia à parte, é sem dúvida o melhor clube do mundo”, refere.

O sonho é, um dia, ver uma portuguesa a conquistar a Bola de Ouro: “Imagino e espero que alguma portuguesa um dia consiga esse feito.”

Jéssica Silva com a camisola do Lyon. Foto: Olympique Lyonnais
Jéssica Silva com a camisola do Lyon. Foto: Olympique Lyonnais

A exigência de competir com as melhores do mundo

Para já, a experiência “está a correr bem”. Lyon é uma cidade bonita, de que Jéssica está “a gostar imenso”, e a nível desportivo, o mais importante, a experiência está a superar as melhores expectativas.

“Gostei muito da forma como fui recebida. A exigência é elevadíssima e elas puxam muito por mim. E elas querem o melhor de mim, para dar o melhor para a equipa. Se fiz o passe mal, sei que na pausa vou ter ali a [Dzsenifer] Marozsán a dizer-me: ‘olha, faz assim’”, explica.

Situação que já aconteceu. A internacional portuguesa conta, nesta entrevista a Bola Branca, um episódio com a médio alemã, considerada uma das melhores jogadoras do mundo.

“Estávamos a beber água e ela disse: ‘olha, vou ensinar-te uma coisa’. E ensinou-me a fazer uma receção com a parte exterior do pé que eu fiquei, ‘uau’. Ela mostrou-me, disse-me como é eu eu tinha de posicionar o corpo e eu fiz aquilo e correu mesmo bem. É incrível, estou a gostar muito”, regozija.

Para a nova temporada, os objetivos do Lyon são claros: continuar a ganhar troféus. “Os objetivos passam por erguer outra vez a taça da Liga dos Campeões, assim como ser campeão da Liga e vencer, também, a Taça de França”, enumera Jéssica Silva.

Megan Rapinoe é uma das estrelas da seleção dos EUA. Foto: Ian Langsdon/EPA
Megan Rapinoe é uma das estrelas da seleção dos EUA. Foto: Ian Langsdon/EPA

O “equal pay” que expõe uma diferença “muito feia”

Um dos temas dominantes no futebol feminino, nos últimos meses, tem sido o pedido de “equal pay” (igualdade salarial), por parte da seleção dos Estados Unidos.

Jéssica Silva considera que as bicampeãs do mundo têm “legitimidade de sobra” para pedirem salário equivalente ao dos homens. Aliás, a avançada acredita, até, que Megan Rapinoe, Alex Morgan e companhia “têm de ganhar mais, porque têm mais sucesso que eles”.

A portuguesa acredita que as jogadoras devem ser remuneradas de acordo com o sucesso desportivo. Contudo, “mais do que haver uma igualdade e ganhar tanto” como Cristiano Ronaldo, Jéssica vinca que o fundamental é que seja criado um mecanismo para que o desequilíbrio entre as vertentes masculina e feminina do futebol não sejam tão desequilibradas, em termos salariais.

“No futebol, em geral, há uma sobrevalorização muito grande dos jogadores. Não há nenhum jogador que valha 200 milhões de euros. São valores tão grandes, tão imensos, tão estonteantes, que sinceramente não faz sentido. A melhor jogadora portuguesa versus o melhor jogador português, a diferença é abismal. Deve é haver um equilíbrio muito maior, devem ser criados mecanismos para que isto não seja tão evidente, porque acaba por ser uma coisa muito feia”, declara.

Jéssica Silva já representou o Braga. Foto: Tiago Petinga/Lusa
Jéssica Silva já representou o Braga. Foto: Tiago Petinga/Lusa

A igualdade salarial não é a prioridade em Portugal

A realidade que mais preocupa Jéssica Silva é a do campeonato feminino português de futebol. A jogadora do Lyon considera que “há coisas mais importantes, muito mais prioritárias” que o “equal pay”.

“Na realidade portuguesa, devem ser criados mecanismos para profissionalizar o campeonato todo. Não podem existir só três equipas a ser profissionais, um Sporting, um Braga e um Benfica“, sustenta.

Jéssica Silva recorda os anos que passou no Clube de Albergaria, clube a que expressa grande gratidão, mas em que “tinha colegas que saíam do trabalho às 19h30 para irem, depois, treinar às 20h30”.

“No contexto da realidade portuguesa, que é aquele que eu posso falar e é o que me preocupa, para mim, o mais importante era conseguirem arranjar mecanismos para que o campeonato num todo fosse profissional”, afirma a internacional portuguesa.

In https://rr.sapo.pt

Sandra Costa

O futebol faz parte da minha vida. Desde cedo que jogo futebol e decidi criar o Portal Futebol Feminino em Portugal porque senti que ninguém conhecia, sabia ou falava de futebol feminino.

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