“Viver do Futebol Feminino em Portugal: Sonho ou possível Realidade?”

Com a crescente curva mediática que o Futebol Feminino está a ter em Portugal surge a pergunta “Viver do Futebol Feminino em Portugal: Sonho ou possível Realidade?”.

Esta pergunta leva-nos a analisar a forma como uma atleta de topo com 16 anos poderá olhar para a sua carreira a longo prazo.

Se por um lado fazerem aquilo que mais gostam é uma enorme alegria, por outro, a alegria pode não lhes trazer estabilidade financeira a médio-longo prazo. Com os horários de treino, os dias de jogo e toda a exigência que um clube profissional requer, conseguirá uma atleta viver apenas e só do futebol?

na foto: Selecção Nacional “A” Feminina

Num interessante relatório publicado pelo sindicato de jogadores relativo à época 2017/2018 (http://sjogadores.pt//scripts/processFiles.php?op=downloadDocumento&file=NDQ0) 70% das atletas da Liga BPI definiam-se como amadoras e 45% não recebiam qualquer ajuda de custo ou apoio por parte do clube. Destas, apenas 7,8% estão acima dos 28 anos e 52,1% estão na faixa etária dos 18 a 23 anos. Com base nestes dados podemos averiguar que a maioria das atletas se encontra em idade escolar dado que 38,1% tem o nível secundário e 26,6% Licenciatura. Isto faz surgir a questão: E depois de concluir os estudos? Jogar ou trabalhar? Poderei conciliar, ou irei abandonar?

Acredito que em Portugal a esmagadora maioria se decida pela segunda opção, dada a impossibilidade de subsistir com a primeira. No relatório pode-se verificar que apenas 17,4% das atletas tem um contrato de trabalho, 7,3% destas são profissionais e do total da amostra apenas 1,7% recebe mil euros ou mais.

Obviamente que estes valores poderão estar ligeiramente diferentes na presente época (2019/2020), mas na sua maioria não deverão estar muito distantes dos valores de há duas épocas atrás.

na foto: Atletas de cada uma das 12 equipas da Liga BPI

Voltando à nossa atleta de 16 anos, poderá ela olhar para um futuro em que lhe será exigida a dedicação de um atleta masculino? E a mesma disponibilidade horária e familiar a troco de um ordenado drasticamente mais baixo? E quando chegar aos 40 anos (se não mais cedo)? Irá à procura de um outro emprego sem qualquer experiência (mesmo que tenha formação Superior)? E a questão familiar? Empurrar um possível desejo de ser Mãe para idades de risco? A troco de quanto? Qual será a protecção contratual que o clube terá para ela nesta situação?

No mesmo estudo foi abordado quais os motivos que as atletas viam para abandonarem a carreira de jogadora de futebol: 43,8% optava por outra oportunidade de carreira e 37,2% para constituir família.

na foto: Sidney Leroux Dwyer grávida num treino da equipa “Orlando Pride”

Após tudo isto que foi explanado, a Profissionalização no Futebol Feminino urge em prosperar e passar a ser regra ao invés de excepção. Uma profissionalização em que o género seja protegido, sem atletas descartadas por motivos familiares (como é o caso de querer ser mãe). Um contrato em que estes assuntos sejam abordados e devidamente esclarecidos com o devido consenso e assinados por ambas as partes. Deveremos caminhar para um futuro em que a carreira de jogadora profissional de futebol em Portugal não seja vista como uma utopia.

Como tal, acredito que será necessário dar toda a estabilidade às atletas e clubes e adaptar o Futebol ao Feminino ao invés do Feminino se adaptar ao Futebol.

(Escrevo estes artigos de opinião representando a minha própria ideia e opinião pessoal não querendo com a mesma ferir qualquer tipo de susceptibilidades e/ou crenças bem como diferenças de opinião).

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